Renato Janine dá curso sobre série catalã Merlí
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Renato Janine dá curso sobre série catalã Merlí

Série catalã sobre professor de Filosofia do curso médio é debatida na Casa do Saber pelo filósofo Renato Janine Ribeiro

Luiz Zanin Oricchio

29 Junho 2018 | 17h15

Merlí (Francesc Orella) na série catalã da Netflix

Em plena Copa do Mundo, cerca de 25 pessoas têm se reunido terças-feiras à noite, na Casa do Saber, para discutir nada menos que uma série de TV.

O curso – breve, de três aulas ou encontros – é ministrado por um professor muito especial, o filósofo Renato Janine Ribeiro, titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo e Ministro da Educação no governo Dilma Rousseff. O objeto de debate: a série catalã Merlí, cujo protagonista é um professor de Filosofia do ensino médio e seu relacionamento com os alunos.

A série, disponível na Netflix e em terceira temporada, se caracteriza por, em cada episódio, destacar um filósofo e discutir suas ideias em relação a dada situação apresentada aos alunos em sua vida cotidiana. Pode ser uma prova muito difícil, namoros, conflitos com os pais, a recusa em sair à rua, a homossexualidade etc.

Ou seja, o curso de Merlí em Barcelona é um exercício de saber prático, de como as ideias filosóficas podem nos ajudar no dia a dia, tirando da disciplina a aura de coisa “esotérica”, “difícil” ou divorciada da vida cotidiana.

O episódio em discussão trata nada menos que do suicídio. Alguns alunos estão chegando à escola quando presenciam alguém se jogar de um edifício da vizinhança. Compreensivelmente, os jovens ficam chocados. Quando Merlí (Francesc Orella) chega à escola, contam-lhe o que aconteceu e recomendam que tenha tato ao tratar do assunto.

E ele tem – à sua maneira. Entra na classe e sem sequer dizer bom dia, põe os alunos ao corrente do que se passou. De forma direta, sem meias palavras e sem atenuantes. Ao contrário do que lhe recomendaram. “Falar é sempre melhor que calar”, diz Janine, comentando a franqueza do professor catalão.

Em seguida, Merlí começa a debater o assunto à luz do pensamento de Albert Camus, autor de romances como A Peste e O Estrangeiro, e também do ensaio filosófico O Mito de Sísifo, escrito em 1941. Neste, Camus sustenta que o suicídio é a questão filosófica mais fundamental dos nossos tempos.

“É meu episódio favorito de toda a série”, diz Janine, “e isso porque trata de um tema extremamente delicado”.

Camus sustentava que o absurdo da vida não  levava ao desespero. Pelo contrário. “Aceitar o espaço do absurdo na vida não significa passividade; Camus lutou contra o nazismo”, lembra Janine.

São os que sustentam o seu contrário, o sentido já dado da vida, em especial aquele fornecido pelas crenças religiosas, os mais suscetíveis ao desespero, quando este sentido não se cumpre ou parece esfarelar-se.

Nesse particular, a atuação de Merlí é profundamente anti religiosa. Nenhum sentido é dado a priori; é preciso construí-lo. A cada um de nós é dada essa tarefa, a de encontrar significado para nossas vidas, mesmo quando elas parecem submersas no absurdo. Mesmo quando essa tarefa nos pareça igual à de Sísifo, personagem mitológico condenado a carregar uma pesada pedra para o alto de um monte, apenas para vê-la desabar de novo e assim recomeçar todo o ciclo. Uma vez e outra e mais outra, e assim por diante.

Desse modo, é o excesso de sentido que parece mais propenso a conduzir ao suicídio que a sua ausência. “O suicídio seria não aceitar o absurdo da vida”, diz o filósofo.

Na aparente simplicidade da série catalã, essas graves questões são discutidas, mas não geram impasses ou paralisia do pensamento. “Todos os personagens entram em conflito, mas estes não duram para sempre”, diz Janine. “Esse reequilíbrio testemunha o caráter educativo da série”, diz.

Janine lembra o aspecto progressivo da dialética de Hegel, na qual se apresenta uma tese, uma antítese e uma síntese, que representa o movimento adiante e não a paralisia. Estende suas conclusões para o Brasil atual. “Estamos paralisados diante de alternativas aparentemente inconciliáveis, os que se detêm no combate à corrupção e os que acham fundamental lutar pela justiça social, sem que tentemos conciliar a ambas exigências”.

Falta dialética ao Brasil atual. Falta síntese. E movimento. Um pouco de Filosofia não nos faria falta. Pensar é subversivo.