As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Reis e Ratos

Luiz Zanin Oricchio

20 Fevereiro 2012 | 11h41

 

É difícil fazer uma sátira política. Mais ainda, fazer uma sátira política inteligente. E muitíssimo mais complicado é fazer uma sátira política inteligente que, ainda por cima, seja engraçada. Na verdade, a última qualidade, se presente, absolve a ausência de todas as outras. Mas o que dizer de uma sátira política pouco engenhosa e que deixa a plateia indiferente? É o caso de Reis e Ratos, do bom diretor Mauro Lima, de Meu Nome Não É Johnny.

Lima recria, em termos de paródia, o clima golpista que havia no País em 1963 e que levou à derrubada do governo no ano seguinte. De certa forma, trabalha com os elementos, alguns deles ao menos, que de fato estavam em jogo naquela situação: militares e civis interessados em se livrar do governo, adidos norte-americanos que davam subsídios à desestabilização, políticos e latifundiários também interessados em tirar sua casquinha, etc. Junta a isso  personagens fictícios que, infelizmente, são esculpidos a machadadas e tornam-se caricaturas.

Os vários núcleos da trama parecem tão fora de sincronia como as falas de alguns tipos que mimetizam personagens dublados (uma boa sacada, em tese). O que fica, então, são impressões desconectadas uma das outras. A dupla Otávio Müller, como major, e Selton Mello, um agente americano, torna-se responsável pelos poucos momentos interessantes do filme. Não são melhores porque, com o texto que tinham os atores, milagres não são permitidos. A presença em cena de Rodrigo Santoro, como o gigolô Roni Rato, só pode ser definida como penosa. Cauã Reymond tenta ser engraçado como o radialista metido a sensitivo, mas o papel não ajuda. E Rafaella Mandelli, bela estampa, parece meio perdida no papel de cantora gaúcha que se torna pivô da trama.

Reis e Ratos é um capítulo à parte na tragédia em que se tornou o gênero cômico no Brasil. Com raras exceções, ou se investe na grosseria como forma de buscar cumplicidade num público já anestesiado pela nota dominante da TV, ou, como é o caso de Reis e Ratos, aposta-se todo o capital sobre um elenco conhecido e descura-se tanto da carpintaria do texto quanto da qualidade de direção.

Os bastidores de 1964 costumam ser apresentados de forma grave no cinema. Já era hora de nos divertirmos com essa tragédia política, que, de fato, teve muito de farsesca, quando vista à distância. Mas não é ainda desta vez que fizemos essa catarse pelo riso.

(Caderno 2)

Mais conteúdo sobre:

cinema brasileirocomédiagolpe de 64