Reinauguração do Belas Artes é rara vitória da cidade contra a barbárie
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Reinauguração do Belas Artes é rara vitória da cidade contra a barbárie

Luiz Zanin Oricchio

19 de julho de 2014 | 13h41

 

Quando o Cine Belas Artes fechou as portas em 2011, pensava-se que fosse para sempre. A reabertura, amanhã, prova que não existem derrotas definitivas e nem vitórias perpétuas. Tudo muda. No caso, mudou para melhor. O Belas Artes voltou, e pelas mãos de André Sturm, o mesmo gestor que o administrava (bem) até o fechamento por pressão do dono do imóvel. O renascimento das salas da Avenida  Consolação é importantíssimo, sob vários aspectos.

Em primeiro lugar, reafirma a importância dos cinemas de rua, espécie em extinção em todas as cidades. Em São Paulo, contam-se nos dedos de uma só mão. O Espaço Itaú, na Rua Augusta, o Reserva Cultural, na Paulista, o Marabá, no Centro e, agora redivivo, o Belas Artes. Essas salas propõem uma dinâmica diferente entre o cidadão e o cinema. Não se trata do mesmo público que vai aos shoppings. Esse público não está num espaço múltiplo de compras, alimentação e lazer. Ele vai ao cinema atraído pelo filme, ou, passando pela rua, é capturado pelo cardápio oferecido pela sala.

Depois, o Belas Artes não é um cinema qualquer. É um cinema “de arte”, em que pesem as relativizações dessa definição. Firmou tradição como exibidor de filmes bons, que vão além do entretenimento imediato e descartável. Era  consenso do público mais cultivado de São Paulo de que se podia ir ao Belas Artes às escuras, sem saber o que estava passando, porque só poderia ser coisa boa. Raramente se errava.

A reserva de uma sala exclusiva para filmes brasileiros significa uma janela a mais para a produção nacional, que tirando exceções óbvias (comédias Globais), encontra dificuldade para chegar ao circuito comercial. No Belas Artes o cinema nacional será bem tratado. Mesmo porque Sturm é também cineasta, diretor de dois longas-metragens, e conhece na pele as agruras de se exibir um filme brasileiro no Brasil, por paradoxal que pareça.

Há também outra tradição a ser preservada – a de manter filmes importantes em cartaz, ignorando pressões de mercado que pedem reciclagem rápida. Esse é um dos aspectos mais cruéis do circuito. Muitas vezes filmes interessantes, porém de assimilação mais lenta, não têm o tempo suficiente para serem divulgados pelos próprios espectadores – o conhecido “boca a boca”. O mercado tornou-se voraz e, muitas vezes, autofágico. No Belas Artes, Medos Privados em Lugares  Públicos, de Alain Resnais, ficou mais de três anos em cartaz.

Por fim, a reabertura do Belas Artes é uma das raras vitórias da cidade sobre as forças predatórias que a devoram. Significa a preservação de um ponto importante da memória paulistana, não como homenagem estéril ao passado e sim como ponto de cultura ativo, criativo e que sabe se reinventar para não perder pé da contemporaneidade. Por raro, esse ato de resistência deve ser comemorado.

E nada melhor para comemorar uma sala de cinema do que frequentá-la e vivê-la.

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