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Refundação da esquerda

Luiz Zanin Oricchio

20 de janeiro de 2010 | 09h47

Li, no fim de semana, uma entrevista do filósofo Ruy Fausto ao excelente caderno cultural do jornal Valor Econômico. Fausto, radicado em Paris, entende que a esquerda deve ser refundada. Em novas bases, suas prioridades seriam a defesa da democracia, o combate à corrupção e, apenas em terceiro lugar, a crítica ao capitalismo.

Estranhei. A defesa da democracia e o combate à corrupção são óbvios. Ninguém em sã consciência pode ser contrário à democracia ou achar que a corrupção seja algo natural e não deva ser combatida. Acontece que ao priorizar esses dois itens, a nova esquerda sonhada pelo filósofo em nada se distingue de outras correntes políticas. Liberais de todos os matizes diriam a mesma coisa que Fausto.

A única atitude que distingue a esquerda de outras formas do pensamento político é que ela coloca a crítica ao capitalismo como sua prioridade absoluta. Deixar essa crítica de lado, ou relegá-la a um apenas honroso terceiro lugar, significa anular-se enquanto alternativa política.

Uma “refundação”, tal como proposta por Fausto, me parece liquidar de vez com a ideia de esquerda. Afinal, uma esquerda que deixa de ser, em sua essência e vocação inicial, visceralmente anticapitalista, de fato não serve para nada.

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