Reflexões de um Liquidificador
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Reflexões de um Liquidificador

Luiz Zanin Oricchio

19 Agosto 2010 | 09h51

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Reflexões de um Liquidificador – já viu nome mais engraçado para um filme? Pois o título não é a única coisa diferente neste novo longa-metragem do diretor André Klotzel. Além de ser uma comédia de humor negro, gênero relativamente raro no cinema brasileiro recente, ele terá lançamento comercial diferenciado. Ao invés de entrar em cartaz como todos os outros, comportadinho, numa sexta-feira, chega às telas hoje, em plena segundona brava. “Chega às telas” talvez seja exagero – chega, na verdade, a uma única tela porém nobre, a da sala 3 do Espaço Unibanco, lá na rua Augusta, um dos templos rituais da cinefilia paulistana.

As novidades não param por aí. Antes do longa-metragem, será sempre exibido um curta-metragem. Serão oito no total, um para cada semana que Reflexões de um Liquidificador deverá ficar no cinema da  Augusta. O primeiro deles será o divertido Divino de Repente, de Fábio Yamagi, sobre o repentista Ubiraci Crispim de Freitas, o Divino, que conta a sua vida entre um verso e outro – ditos com graça e velocidade de metralhadora. A filmagem se vale também de técnicas de animação para contar a história do personagem. Nas semanas seguintes, outros curtas interessantes serão exibidos no Espaço: Dossiê Rebordosa, Black-Out, Ernesto no País do Futebol, Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba e Avós. Além disso, nas sessões das 20h e 22h haverá shows de stand-up comedy, com quatro atores se revezando: Marcelo Mansfield, Carol Zoccoli, Murilo Gum e Criss Paiva. No final da sessão das 22h, o diretor do curta discutirá seu filme com o público. Nas quartas, no mesmo horário, alguém do longa (o diretor, ou uma pessoa do elenco ou roteirista) virá para conversar com o público. É muita coisa para um filme só, ou não é?

“Mas alguma coisa tinha mesmo de ser feita ou tentada”, diz Klotzel, cansado de ver os filmes brasileiros entrarem e saírem de cartaz a toque de caixa, sem deixar qualquer resíduo no público. “Eu apresentei a proposta para o Adhemar Oliveira, do Espaço Unibanco, ele topou e ainda entrou com a ideia da apresentação dos comediantes”, diz. A ideia de base é fazer do programa de ir ao cinema algo diferente, um evento, um acontecimento em si, algo único, que não pode ser feito em casa diante da TV. Criar atrativos adicionais, pois “Os filmes não têm tempo de fazer sua carreira junto ao seu público potencial”, diz Klotzel, lembrando-se de títulos recentes que poderiam ter ido muito mais longe do que de fato foram, como Os Inquilinos, de Sérgio Bianchi, É Proibido Fumar, de Anna Muylaert, e Olhos Azuis, de José Joffily.

Para encontrar esse nicho de mercado, o cineasta conta não apenas com essa inusitada estratégia de lançamento, mas também com um gênero que, acredita, tem seu público – uma comédia de humor negro que conta com trama sutil e bons atores para interpretá-la.

Essa fábula paulistana tem como narrador um eletrodoméstico do tempo do onça, um liquidificador avariado que, depois de passar por um conserto, adquire consciência e passa a conversar com sua dona, Elvira. A voz do aparelho é de Selton Mello. Elvira (Ana Lúcia Torre) é uma dona de casa que vive com o marido já entrado em anos e de aparência pacata, Onofre. Ele é interpretado por Germano Haiut, conhecido do público pelo papel de avô do menino em O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburguer. Aramis Trindade (de Baile Perfumado) faz um sinuoso investigador de polícia, Fabíula Nascimento é a vizinha de Elvira, e o há pouco falecido Marcos Cesana faz papel de carteiro. Gorete Milagres entra numa participação especial. Tudo gira em torno do desaparecimento de uma pessoa, um possível crime e uma investigação. Mais não deve ser dito sob pena de estragar o prazer de quem irá assistir ao filme. Prazer que depende da possibilidade de descobri-lo passo a passo.

Uma curiosidade adicional é que Reflexões de um Liquidificador surge de um acidente de percurso na carreira de Klotzel. Ele estava preparando novo longa-metragem, inclusive com parte do dinheiro de produção já captado, quando entra em cartaz um título destinado a ser o grande sucesso do cinema brasileiro contemporâneo – Se Eu Fosse Você, de Daniel Filho. “Quando vi o filme do Daniel não acreditei e disse para mim mesmo: ‘estou ferrado’”. Por quê? Por um simples motivo. O roteiro que ele iria começar a filmar, com o título de De Corpo e Alma, era simplesmente a história de duas mulheres quer trocam de corpo, uma pela outra. Muito parecido com a trama do casal interpretado por Tony Ramos e Gloria Pires. Parecido demais. “Não dava”, admite Klotzel, “tive de abandonar o projeto e devolver o dinheiro.”

Surgiu então a ideia de adaptar o texto de José Antonio de Souza e Liquidificador tomou vida. Na voz e na malícia de Selton Mello.

Crítica

Klotzel diz que não sabe se sua comédia faz parte de um subgênero, uma espécie de comédia à paulistana, como as de Anna Muylaert (Durval Discos e É Proibido Fumar) ou de José Antonio Garcia, que também dialogou com o humor negro em O Corpo (1991). “Deixo isso para quem está de fora e assiste ao filme, mas é claro que esses diálogos existem e estão no meu horizonte”, diz.  Faz bem. Umberto Eco (no posfácio de O Nome da Rosa) dizia que o autor deveria morrer (simbolicamente, claro) depois de terminada a obra. Ou seja, deveria deixar que os outros falassem sobre ela. Mesmo porque, em certo sentido, o autor é o menos capacitado para interpretar a sua própria obra. De vê-la “objetivamente”, como diz Klotzel.

Visto de fora, Reflexões de um Liquidificador parece fazer parte, de modo coerente, de uma proposta e de um estilo. Klotzel, como boa parte da geração que começou a fazer filmes no final dos anos 1980, pegou a ressaca da era pós-Embrafilme, por fim desmontada no início do governo Collor, mas já agonizante no final da década. Era uma geração ainda ligada no Brasil, mas já sem a adrenalina revolucionária do Cinema Novo. E sem o desejo do cinema-espetáculo das superproduções da Embrafilme. Nessa linha, Klotzel sempre se mostrou adepto de um cinema intimista sem ser entrovertido, engraçado sem ser explícito, à procura de um sorriso de inteligência no espectador. Fez isso relendo Antonio Candido em Marvada Carne ou adaptando Machado de Assis em Memórias Póstumas.

Esse sorriso não tão rasgado, ele procura de novo em Reflexões de um Liquidificador. Busca pelo inusitado da história, pelas interpretações serenas do elenco, por uma fotografia e música que nunca se sobrepõem à essência da trama. Pelo contrário, a servem. Num tipo de enredo que está sempre a um fio de cabelo do ridículo, essa contenção é disciplina fundamental.

O nó das bilheterias dos filmes brasileiros

O fato de ter batido de frente com um blockbuster brasileiro, Se Eu Fosse Você, de Daniel Filho, pode ter inspirado Klotzel a refletir sobre as questões de mercado e propor algo original para o lançamento do seu filme seguinte.

De fato, o circuito cinematográfico brasileiro chega às vezes a ser quase que 100% ocupado pelos filmes dos grandes estúdios norte-americanos. Shrek entra em 600 salas; o filme pipoca-cabeça A Origem em outras tantas. Sobra pouco para o resto. Menos ainda para o cinema independente e o cinema brasileiro em particular.

Além disso, Klotzel (e com ele muita gente) já percebeu que a fatia média de mercado que vem sendo ocupado pelos filmes brasileiros, cerca de 10% dos bilhetes vendidos no ano, é preenchida por uns poucos sucessos nacionais. Chico Xavier faz 3,5 milhões de espectadores, mas um êxito de crítica como Viajo Porque Preciso, Volto porque Te Amo mal chega aos 25 mil pagantes. Tudo bem, este é um filme original demais, muito fora do padrão e destinado a públicos pequenos. Mas obras com potencial de diálogo bem maior também não vão até onde poderiam. É o caso de Olhos Azuis, de José Joffily, que nada tem de difícil e fez apenas 14 mil espectadores até agora.

Claro, os filmes médios brasileiros não podem ser comparados a blockbusters. Têm de ser medidos em comparação a outros filmes médios, cujo melhor exemplo talvez venha da produção de outro país. O Segredo dos Seus Olhos, de Juan José Campanella, vencedor do Oscar, já foi visto por 310 mil brasileiros. Nada mau. É um patamar ao qual podem aspirar produções de bom nível artístico mas de diálogo fácil com o público. Isso não tem acontecido e filmes “populares e inteligentes” como É Proibido Fumar, de Anna Muylaert, com cerca de 50 espectadores, ficam muito aquém do que poderiam. Parece que é preciso fazer alguma coisa a mais para tirar as pessoas de casa e levá-las ao cinema. É o que André Klotzel está propondo. Se vai conseguir ou não é outra história. Mas ninguém poderá dizer que não foi inventivo ou não tentou.

CV de André Klotzel

André Klotzel nasceu em São Paulo, em 1954. Reflexões de um Liquidificador é seu quarto longa-metragem. André estreou em 1986 com Marvada Carne, um sucesso de público e crítica com Fernandinha Torres no papel principal. Levou quase dez anos para lançar o segundo, Capitalismo Selvagem (1994), feito em plena crise da era Collor. O terceiro foi a correta adaptação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, em 2001, uma das obras-primas de Machado de Assis. Dirigiu também curtas de sucesso como Gaviões, sobre a torcida organizada do Corinthians, e Brevíssima História das Gentes de Santos.