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Refletindo sobre a fragilidade da vida

Luiz Zanin Oricchio

19 Maio 2007 | 09h35

A idéia de que a vida é frágil demais dá o mote a Olhe para os Dois Lados, da diretora australiana Sarah Watt. Na verdade, a história do filme é formada por duas fragilidades que se encontram – a artista plástica Meryl (Justine Clarke) e o fotojornalista Nick (William McInnes). Ela e ele têm seus motivos para ver a morte em toda a parte.

E os dois se conhecem quando acontece um acidente ferroviário fatal. Um homem cai diante de um trem que passa vagarosamente e ninguém fica sabendo se afinal foi mesmo uma fatalidade ou se ele cometeu suicídio. Meryl passava pelo local e é testemunha. Nick foi mandado para cobrir o fato e tirar fotos. Os dois se conhecem. Têm todos os bons motivos para apoiar-se um no outro, e outros tantos para distanciar-se.

Nesse que é o seu primeiro longa, Sarah Watt revela-se uma cineasta sensível. Antiga diretora de curtas de animação, traz esse recurso para o cinema de ficção – cenas com personagens interpretados por atores são às vezes intercaladas com outras desenhadas. O recurso não pode ser tido como original, mas o que é totalmente original hoje em dia? Ela o utiliza, em especial quando precisa traduzir em imagens a vida de fantasia de Meryl. Por exemplo, quando ela se sente assustada, imagina-se num mar revolto, cercada de tubarões. Que melhor maneira de figurar isso do que através de um desenho?

O que vemos é também uma ágil utilização das imagens e da montagem. Olhe para os Dois Lados é um filme que se vê com rapidez, mas que também propõe momentos de repouso, pausas para reflexão. Quer dizer, não transforma a experiência cinematográfica em montanha-russa inconseqüente. Fala de sentimentos e da angústia que todos sentimos em relação ao futuro, ao que a vida nos reserva, àquilo que não se controla.

É curioso como esse tipo de temática, no fundo ‘filosófica’, anda aparecendo com certa freqüência, e envolve a discussão sobre o acaso e a necessidade no destino humano. Logo entrará em cartaz o belo filme de Philippe Barcinski chamado de Não por Acaso. Os longas dirigidos ou escritos por Paul Auster (Cortina de Fumaça e Sem Fôlego) também andam por esse caminho.

Fazem, em conjunto, um tipo de reflexão interessante sobre o modo de ser do homem contemporâneo. Cada vez mais vivemos numa sociedade da técnica, digitalizada, em que tudo parece previsível, esquadrinhável, passível de transformação numérica. E é justamente no interior dessa convicção sobre o exato, que forma uma espécie de inconsciente coletivo da época, que o inesperado faz sua intromissão devastadora. Na forma da doença fatal escondida no recôndito do corpo, do avião comercial que se abate sobre um edifício, ou de uma fulminante e inesperada paixão.

(SERVIÇO)
Olhe para os Dois Lados (Look Both Ways, Austrália/2005, 100 min.) – Drama. 10 anos. Cotação: Bom