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Recife: O eu nacional e o “outro”

Luiz Zanin Oricchio

24 Abril 2007 | 11h46

RECIFE – Estar em Recife, ou “no” Recife, como eles dizem, é um prazer. Hoje de manhã dei uma bela caminhada pela orla de Boa Viagem e pensei numa banalidade (nem por isso menos verdadeira) sobre como é mais doce viver à beira-mar. Tomei minha água de coco e cá estou, pronto para comentar a primeira noite de festival, que foi meio irregular. Atabaques Nzinga, de Octávio Bezerra, eu já tinha visto na Mostra de São Paulo. Não se pode dizer que tenha sido um sucesso de público por aqui, mesmo pelos padrões da tolerante platéia recifense. Thais Araújo faz a garota que sente os apelos de sua ancestralidade e vai atrás de suas, digamos, raízes. Nessa mistura de ficção (rala) com documentário, docudrama, etc. sobressaem os números musicais, em especial os de Naná Vasconcellos, Carmen Costa, Paulo Moura, Nelson Sargento. Grande é a música brasileira, mas esses números dispersos não compõem um painel que signifique um grande filme. Falta costura e reflexão. O cinema é (também) “cosa mentale”, como dizia Leonardo a respeito da pintura, mas os cineastas se esquecem disso com freqüência. Ou nem tomam conhecimento disso, para dizer com mais simplicidade.

No segundo longa, tivemos uma homenagem a Ariano Suassuna, que este presente no Cine Teatro Guararapes. Ele é o personagem de O Senhor do Castelo, de Marcos Vilar. O filme, fora de competição, dá a palavra a Suassuna, que não hesita em usá-la, como sabe quem o conhece. Em sua defesa da identidade, com seu nacionalismo um tanto fora de época, Suassuna é uma espécie de Quixote da brasilidade. Num tempo de entreguistas, a atitude é até salutar. Precisava ser matizada e questionada, no entanto, pois tornou-se difícil, hoje em dia, afirmar a identidade como uma entidade estática, como uma essência, um veio de ouro a ser buscado e preservado. Claro, o filme passa por cima disso, mesmo porque não se propõe a ser uma discussão teórica do do criador do movimento armorial. Mas não acho que se possa compreender a fundo tanto a contribuição quanto as limitações de Suassuna sem discutir essa dialética entre o nacional e o internacional no mundo globalizado. Ou seja, essa indecisão entre o “não ser e o ser outro”, segundo as palavras de Paulo Emilio Sales Gomes.

Aliás, aproveito para citar a frase inteira, pois acho que pode interessar a vocês, como interessa a mim, em todos os instantes da vida: “Não somos europeus nem americanos do norte, mas destituídos de cultura original, nada nos é estrangeiro pois tudo o é. A penosa construção de nós mesmos se desenvolve na dialética rarefeita entre o não ser e o ser outro.” Essa idéia-síntese está no texto Cinema: uma Trajetória no Subdesenvolvimento, com certeza páginas que estão entre as mais lúcidas já escritas neste país. Dediquem um momento a essa frase.