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Recife 2010 Cinema de Guerrilha

Luiz Zanin Oricchio

28 de abril de 2010 | 16h54

É muito difícil saber quantos filmes fez Evaldo Mocarzel até este Cinema de Guerrilha, que apresenta na mostra competitiva do Cine PE. É filme atrás de filme e essa produção em série explica muita coisa. Às vezes ele acerta, outras erra. Não há tempo de depuração, tempo de reflexão, distanciamento e assim a coisa vai. Evaldo não deixou de ser jornalista e, no caso, isso é um problema. Cinema de Guerrilha paga o preço de tanta pressa.

A ideia é acompanhar jovens da periferia que fazem filmes por conta própria. De certa forma é o retorno de Evaldo ao seu primeiro filme, À Margem da Imagem, que discutia (ou deveria) a aproapriação da imagem dos pobres pelos cineastas da classe média.

Aqui é a mesma coisa, só que Evaldo conta com depoimentos de pessoas mais aguerridas, que discutem os limites de cineastas de classe média quando filmam a periferia de São Paulo ou outra cidade qualquer. Não avançam muito na discussão e as imagens, tomadas num veículo em permanente movimento, tendem, como as falas, a serem muito repetitivas. Esse recurso é a provável homenagem a Abbas Kiaorostami, que filmou mais de uma vez seus personagens dentro de automóveis, porque esse é o espaço que sobrou da intimidade na vida moderna. Em casa, as pessoas estão diante da TV, ou no computador ou no celular  e não podem conversar.

Há, no meio do filme, um fato que poderia ter levado tudo para outro lado: a câmera dos rapazes é furtada pelo pessoal do “movimento”. Ou seja, dos traficantes. Há uma insinuação de que isso pode alterar a percepção que se tem, com as críticas possíveis à divisão didática entre classes que é reiterada ao longo do documentário e nada nos ensina que ainda não soubéssemos.

Mas a oportunidade não é desenvolvida como poderia e perde-se a chance. A bola quicou na área e o diretor não soube colocá-la para dentro. Acontece. Não faltará oportunidade a cineasta tão prolífico. E ele já tem mais cinco ou seis projetos em andamento.  Mas é preciso pensar. Cinema, ficção ou documentário, é também “cosa mentale”, como dizia Leonardo Da Vinci sobre a pintura.

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