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Rauuuuul…

Luiz Zanin Oricchio

17 de março de 2012 | 20h31

Raul, o Início, o Fim e o Meio não é apenas mais um documentário musical. O filme de Walter Carvalho faz imersão total no personagem e no clima de época. Vê-lo é experiência radical, tanto para fãs do Maluco Beleza quanto quem pensava não ligar muito para ele.

De início, o que nos envolve é a riqueza do material recolhido. Imagens pouco vistas de Raul, da juventude à decadência, se sucedem pelo filme. Mas a qualidade (e raridade) dessas imagens seria apenas uma virtude isolada do filme, caso elas não fossem potencializadas por uma montagem de fato lisérgica.

Temos, então, na tela, a dinâmica dessa vida tão intensa, queimada em meros 44 anos, e mostrada desde a pulsão extrema da juventude até os movimentos pesados e hesitantes da precoce decadência física.

E, sim, no tempo do politicamente correto, em que se varre o polêmico para debaixo do tapete para se fingir que não existe, nada é poupado de uma biografia feita de extremos. Do envolvimento com o ocultismo ao convívio com as drogas, tudo se fica sabendo neste filme adulto, sem lições moralizantes, que acredita no discernimento do espectador.

Há depoimentos surpreendentes pela franqueza. De longe, o que mais chama a atenção é o de Paulo Coelho. Mesmo quem está acostumado a tratar o escritor com certo desprezo intelectual, deverá reconhecer sua coragem ao assumir que foi ele sim quem apresentou as drogas a Raul, do ácido lisérgico aos cogumelos alucinógenos. Só se arrepende da cocaína, droga do diabo, droga do capitalismo. Há o momento curioso quando uma mosca começa a atormentar o entrevistado em sua casa em Genebra. “Engraçado, aqui não tem mosca”, diz Coelho, como a sugerir que, da conversa, havia surgido a mosca que poderia cair em sua sopa, segundo a canção famosa. Ou seja, havia surgido o espírito de Raul, o malucão que morreu jovem, enquanto seu parceiro de músicas e trips envelhece na riqueza de uma carreira consolidada. Ato contínuo, com um movimento inesperado, o mago dá cabo da intrusa.

Em meio a muita música, depoimentos fortes de amigos, parceiros e ex-mulheres e, acima de tudo, com uma pegada roqueira, Carvalho coloca seu filme em sintonia com o espírito anárquico do personagem. Usa Raul Seixas como linguagem cinematográfica nesse filme engraçado e comovente, de tom sempre jovem e contestador. Como Raul.

(Caderno 2)

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