Raízes do Brasil e o ouro de Rafaela
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Raízes do Brasil e o ouro de Rafaela

Luiz Zanin Oricchio

10 de agosto de 2016 | 20h56

rafaela

Segunda-feira à noite fui ao lançamento da edição crítica de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda. No mesmo dia em que Rafaela Silva ganhou a medalha de ouro no judô.

Qual a relação entre uma coisa e outra?

Há algo de emocionante, creio eu, no fato de que algumas pessoas dediquem tanto tempo, energia e inteligência para produzir algo como esta edição crítica de um livro publicado pela primeira vez há 80 anos e alvo, desde então, de incontáveis exegeses, um dos textos canônicos da interpretação do Brasil, ao lado de Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, e Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Jr.

Acontece que Raízes não é um livro parado no tempo. Foi sendo reelaborado ao longo dos anos, mudando seu sentido à medida que mudava seu contexto histórico e mudavam as convicções do seu autor. É work in progress. Coisa viva. Como um desses quadros cujas imagens vão sendo pintadas umas sobre as outras. Pentimento, creio que é o termo artístico que a eles se aplicam. O mérito dessa edição é colocar a olho nu essas diversas camadas do texto.

S11 ARQUIVO 14/10/2009 CADERNO2 Sérgio Buarque de Holanda, imagem extraida do livro

Sérgio Buarque de Holanda em seu escritório

 

O trabalho se deve a Lilia Moritz Schwarcz e a Pedro Meira Monteiro. Fui ao lançamento, com debate, no Teatro Eva Herz da Livraria Cultura. Tive o prazer de encontrar meu querido José Miguel Wisnik e trocamos um abraço forte. O debate foi ótimo, um momento de exercício inteligência neste período tão triste. E tão burro.

Depois a medalha. Não acompanho muito judô, a não ser em olimpíadas. Soube que Rafaela fora derrotada na Olimpíada de Londres e chegara a abandonar o esporte. Um comentarista a definiu como problemática, impulsiva e imprevisível. Como a dizer que alguém vindo da pobreza extrema não era mesmo digna de confiança. Rafaela é de Cidade de Deus e não teve vida amena, como acontece com a maioria dos seus habitantes. Vendo-a lutar, sentia-a segura, determinada, movida por alguma paixão intensa. Ou alguma ferida profunda, o que dá na mesma. A gente sente esse mesmo olhar em alguns jogadores de futebol vindos da miséria, em lutadores de boxe, em rappers, em músicos de jazz. Sabemos que eles não recuam, pois já foram colocados contra a parede.

Esses dois fatos – o debate sofisticado em torno de uma obra maior do pensamento brasileiro, e o ouro conseguido pela menina vinda da pobreza – formaram um todo em minha mente.

Tentei entender o motivo. E ele me parece muito claro, óbvio até. Neste momento de dor e obscurantismo, em que mais uma vez a democracia é ultrajada, o Brasil sobrevive em alguns raros pontos de luz. No valor da sua inteligência e no talento do seu povo. As forças do retrocesso são enormes, como acabamos de ver. Seria melhor se fosse de outro jeito, sem descontinuidades extremas, mas esse tipo de normalidade não parece ser para nós.

A sociedade parece ter uma dinâmica própria, uma certa inércia criativa, que a faz continuar mesmo sob condições muito adversas. Assim, seguimos.  

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