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Raízes do Brasil: 70 anos

Luiz Zanin Oricchio

12 de outubro de 2006 | 20h09

Tem livros que a gente vai lendo vida afora, e um deles é Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda. Raízes está completando 70 anos de publicação e ganha uma edição especial comemorativa pela Companhia das Letras contendo vários prefácios que foi ganhando ao longo dos anos, e um deles em especial, o de Antonio Candido, escrito para uma reedição de 1967. O volume terá (ponho no futuro pois ainda não chegou às livrarias) ainda artigos de Alexandre Eulálio, Evaldo Cabral de Mello, Bolívar Lamounier, Antonio Arnoni Prado, Pedro Meira Monteiro, Robert Wegner, Cassiano Ricardo e Rui Ribeiro Couto. Ufa!

Mas o livro merece isso e muito mais. Sérgio escreve em estilo límpido. Lida hoje, parece incrível que essa obra tão sintética tenha tido tamanha durabilidade cultural. Ela se coloca ao lado de outras como Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, e Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Jr., também fundamentais. Obras dos anos 1930, exprimem, segundo Candido “o radicalismo intelectual e análise social que eclodiu depois da revolução de 1930 e não foi, apesar de tudo, abafado pelo Estado Novo”. Os três eram “explicadores do Brasil” e formaram toda uma geração de pensadores, entre os quais o próprio Antonio Candido se inclui.

Bem, o conhecimento do livro foi passando de uma geração a outra até chegar àquela que já tinha Antonio Candido como um dos seus mestres mais importantes. Pela voz do professor ou por seus textos tentávamos entender o que queria dizer “homem cordial”, aquele conceito-chave bolado por Sérgio Buarque, que àquela altura do campeonato já virara, para nós, “o pai do Chico”.

O conceito é menos óbvio do que parece. O homem cordial não é o homem bonzinho, afável, etc., mas aquele que se mede pelas relações afetivas, do coração (“cordial” vem daí). Portanto, ele é pouco apto para as relações impessoais da sociedade contratual, cujo exemplo maior vem dos anglo-saxões. Será que essa “cordialidade” existe mesmo e, existindo, representa um bem ou um mal para o Brasil? Há controvérsias, que certamente serão expostas quando o livro for, uma vez mais, discutido entre nós.

Clássicos são assim: nunca terminam de dizer aquilo que têm para dizer. A frase é de Italo Calvino e parece tautológica, mas é apenas impressão. Clássicos são livros relidos e reintepretados a cada geração, porque suspeitamos que trazem alguma verdade que ainda não foi completamente decodificada e temos nós a esperança de sermos aqueles que irão compreender seu sentido último. Mas a tarefa sempre acaba passando para a geração seguinte. Raízes do Brasil é um desses raros livros. Indispensável.

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