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Racismo à brasileira, cinema e futebol

Luiz Zanin Oricchio

24 de outubro de 2006 | 14h13

Fiquei meio mal com a notícia dos três rapazes presos na Vila Mariana colando cartazes racistas. A gente se ilude pensando que o Brasil está imune contra esse tipo de coisa que se vê muito na Europa, mas de vez em quando aparece por aqui. Há todo tipo de gente na sociedade, esse é um fato. Mas não pude deixar de pensar em como tudo isso parece particularmente estranho numa cidade como São Paulo, cuja força vem justamente do seu caráter multicultural e multiétnico.

Lendo a notícia, não pude também deixar de lembrar do belo filme de Cao Hamburguer, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias. A história se passa nos anos 70, durante a Copa do Mundo, e no bairro do Bom Retiro. Hamburguer não é ingênuo e sabe que existiam os guetos. Judeus vivendo entre si, italianos para o lado deles, etc. Mas, por algum maravilhoso mistério brasileiro, esses guetos acabam por seu comunicar. E, comunicando-se, de certa forma se dissolvem. As pessoas interagem e convivem. Judeus e góis, árabes, italianos, nordestinos, negros, orientais. Essa mistura a que chamamos povo brasileiro.

Essa civilidade da convivência entre diferentes é o que mais me emociona no filme de Cao Hamburguer. E, nele, o futebol entra como elemento civilizatório, pois dentro das quatro linhas somos todos iguais e como torcedores nos irmanamos na vontade de que a nossa seleção vença. E se somos iguais no campo de jogo por que não deveríamos sê-lo fora dele?

Será que aquele pessoal racista não jogou bola quando criança?

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