Quincas Berro d’Água
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Quincas Berro d’Água

Luiz Zanin Oricchio

21 de maio de 2010 | 19h16

quincas

Há críticos que consideram A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água o melhor texto de Jorge Amado, ao lado de Vasco Moscoso de Aragão, Capitão de Longo Curso. Em uma edição antiga, os dois compunham o volume Os Velhos Marinheiros, uma das delícias supremas da literatura que Jorge nos legou. Agora foram desmembrados em dois livros. Vasco Moscoso é um romance, de quase 300 páginas, contando a história do navegante imaginário (ou será que não?), com suas aventuras, vividas ou sonhadas pelos mares do mundo. Quincas é um relato relativamente breve, uma novela de 120 páginas na edição atual, que Jorge escreveu sob encomenda da revista Senhor. “Daí o formato sintético, tão diferente do Jorge Amado barroco e oceânico a que nos acostumamos”, diz o ator Paulo José, intérprete de Quincas nessa adaptação feita pelo cineasta baiano Sérgio Machado (o mesmo de Cidade Baixa) e que chega hoje aos cinemas.

A história é uma delícia e o filme preserva seu sabor original. Joaquim é o funcionário público modelo, casado com uma megera e pai de uma filha chata. Tudo, aliás, é tédio em sua vida: do trabalho aos colegas, dos parentes à família. E assim toca a existência até o dia em que resolve mandar tudo às urtigas e se transformar em Quincas, o cachaceiro mor, o boêmio das noites de Salvador, o rei dos bordéis e das mesas de jogo, o amigo dos mestres de capoeira, dos malandros e dos marinheiros do cais do porto. Enfim, é um personagem que desiste da chatice da existência de classe média e encontra a alegria em meio à marginália, lá onde Jorge Amado pensa residir a vida mais autêntica e feliz. A vida anti-burguesa por definição.

Enfim, é pegar ou largar: esse é o universo de Jorge e por aí não haveria grande diferença temática em relação a outras de suas obras, como o volumoso Dona Flor e seus Dois Maridos. Sua grande sacada é construir a narrativa a partir da morte do protagonista. O boêmio é encontrado morto em seu quarto miserável na Cidade Baixa e a família, para manter as aparências, resolve lhe dar enterro decente. Como se a morte recuperasse Quincas para a virtude pequeno burguesa que havia abandonado ao se devotar ao álcool e à malta com a qual estabelece suas novas relações de amizade. O que a família não contava era com a fidelidade canina dessa escória social, que chega ao velório para prestar a última homenagem ao defunto e acaba por levá-lo a passeio pela noite soteropolitana, para uma última farra, para a gargalhada final.

Existem muitos pontos positivos nessa leitura da obra de Jorge por Sérgio Machado. A começar pela preservação da espinha dorsal da narrativa, mas não como sujeição à letra do texto e sim ao seu espírito. Há, no filme, episódios que não constam do livro, mas esses acréscimos em nada distorcem a ideia básica do relato. Apenas o reciclam para um meio de expressão que precisa de ritmo e movimento diferentes daqueles da literatura. Movimento que pode às vezes se tornar um pouco excessivo, como na sequência em que o “morto” é conduzido a uma delegacia de polícia e dela é retirado pela janela.

Mas é justamente a esse morto que o filme deve muito de sua vida. Sérgio Machado diz que, na fase de projeto, seu sonho de consumo era ter Paulo José no papel principal. Não ousava convidá-lo porque sabia que o ator sofre do Mal de Parkinson. Um dia falou sobre isso à sua figurinista, Kika Lopes, mulher de Paulo. Ela lhe disse que o marido estava ótimo. Havia sido operado há pouco nos Estados Unidos e ganhara um implante cerebral que controlava a doença. “Foi o maior presente que ganhei”, diz o diretor.

Paulo correspondeu à expectativa positiva. Empenhou-se a fundo na filmagem. Era o primeiro a chegar ao set e o último a sair. Para facilitar o trabalho, construíram um boneco para substituí-lo nas cenas mais difíceis. “Foi o gasto mais inútil que tivemos”, diz o diretor, “porque Paulo fez questão de fazer quase tudo sozinho, sem a ajuda do ‘dublê’”.

O próprio ator argumenta que o boneco é muito duro, sem molejo. Porque sim, mesmo um morto tem vida, como demonstra o ator. Paulo faz seu Quincas defunto “falar” por um ou outro gesto involuntário, e também por um sutil sorriso que estampa às vezes nos lábios. O resultado é uma comédia muito boa, com todos os ingredientes sociais presentes na obra de Jorge Amado.

Jorge tinha de fato uma predileção pelos desvalidos, pela escala social mais baixa, e Sérgio Machado o acompanha nessa opção. “Acho que é uma constante no tipo de cinema que eu faço”, diz, lembrando dos personagens populares de Cidade Baixa. Tanto assim, que agora ele trabalha com a adaptação de A Arca de Noé, de Vinicius de Moraes, e manifesta sua preferência por animais como a minhoca e percevejos. “Os insetos são o lumpesinato dos reino animal”, ri.

Para encenar essa espécie de ópera bufa popular, que é Quincas Berro d’Água, Sérgio Machado contou com um elenco de primeira, além de Paulo José. Marieta Severo faz Manuela, uma cafetina apaixonada por Quincas. Mariana Ximenes é Vanda, filha de Quincas, e casada com o chatinho, Leonardo (Vladimir Brichta). Flávio Bauraqui (Pastinha), Irandhir Santos (Cabo Martim), Frank Meneses (Curió) e Luís Miranda (Pé de Vento) estão ótimos como os amigos que levam o defunto a passear pela noite baiana. O filme é muito bem produzido e consegue se equilibrar na exigência de um cinema de qualidade brasileiro sem por isso cair no ranço academicista que mata muitas produções contemporâneas. É um belo exemplo de cinema popular. Se bem lançado, tem tudo para fazer sucesso.

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