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Questões para o cinema político

Luiz Zanin Oricchio

25 de outubro de 2006 | 13h33

Amigos e amigas: sábado passado publicamos no Caderno 2 uma reportagem sobre cinema político. Neste sábado, a Mostra promove debate sobre o tema e lança livro, organizado por Álvaro Machado, com entrevistas com diretores desse gênero, ensaios, etc, editado pela Cosac Naify. Na matéria de sábado, foram propostas cinco questões a pensadores como Walnice Nogueira Galvão, Olgaria Matos e Renato Janine Ribeiro. Estou reproduzindo a matéria, para servir de subsídio a quem se interessar pelo tema e quiser acompanhar o debate. Será no sábado, às 19h, no Clube da Mostra, que fica no 6º andar do Shopping Frei Caneca. Estarei na mesa.
Texto:

A Retrospectiva Cinema Político Italiano representa uma iniciativa
importante da Mostra de Cinema. Em primeiro lugar, claro, pela qualidade dos
filmes programados. Em segundo, pela ocasião, oportuna, em que essas obras
podem ser vistas ou revistas.
Não se fala nem no óbvio momento que atravessa o País, com as eleições mais
acirradas da fase posterior à redemocratização. Essa é uma contingência.
Política, claro. O que a mostra pode revelar, como se isso ainda fosse
necessário, é que a política é um daqueles assuntos sérios demais para
permanecer na mão de especialistas. Vale dizer: é assunto de todos nós,
coletivamente, pois a todos afeta. E o leque que se abre a partir dessa
rubrica parece bastante amplo para abranger uma variedade de temas e
assuntos.
Por exemplo, Bernardo Bertolucci, em seu clássico Antes da Revolução, usa um
alter ego para discutir a questão crucial de um jovem hesitante entre o
comodismo da vida pequeno-burguesa e o salto no escuro da revolução. O Caso
Mattei, de Francesco Rosi, trata de uma aparente conspiração pelo domínio da
empresa estatal que controla o petróleo italiano – um conflito entre
interesses nacionais e multinacionais. O também clássico A Classe Operária
Vai ao Paraíso, de Elio Petri, reflete sobre as condições de trabalho na
sociedade capitalista. Seriam temas políticos de manual: as expectativas de
uma ruptura; os interesses do capitalismo internacional; a alienação no
trabalho.
A estes se agrega outro tema, a especulação imobiliária criminosa, ponto de
partida de As Mãos sobre a Cidade, de Francesco Rosi. Os interesses
eleitorais dos partidos políticos impedem que se encontrem os culpados pela
construção de um edifício popular em Nápoles, que desabou e provocou várias
mortes. É também política a contingência que faz do dinheiro algo mais
importante que a vida humana.
Mas a mostra avança também por temas menos “tradicionais” e que nem por isso
deixam de ser políticos, em seu sentido profundo. Em Um Dia muito Especial,
para muitos a sua obra-prima, Ettore Scola evoca o tempo de Mussolini para
tentar entender o que poderia significar a condição homossexual – e a
condição feminina – naquela época de machos de direita triunfantes.
O mesmo Scola, em Feios, Sujos e Malvados, mostra como vivem os párias da
sociedade italiana. Nessa visão sem atenuantes do lumpenproletariat, o
humanista Scola sugere que as condições muito árduas da existência levam à
perda do mais elementar sentido de solidariedade. Também é de Scola a idéia
original de acompanhar o transcurso do tempo histórico, e as mudanças que
ele acarreta, numa única locação, um salão de danças, e sem diálogos. É esse
o ambiente de O Baile.
Giuliano Montaldo descreve um caso judicial, a condenação de Sacco e
Vanzetti, culpados menos pelas evidências das provas do que pelo simples
fato de serem anarquistas vivendo em época e local inadequados.
Em Pai Patrão, talvez o filme mais famoso e inspirado dos irmãos Paolo e
Vittorio Taviani, temos, em aparência, algo que é de domínio privado e não
público: a educação extremamente severa que um pai inflige ao filho e como
este consegue se libertar através da cultura. Quando vemos de perto,
percebemos que o meio, a aspereza das relações e tudo o que conforma a
estrutura de uma organização social, aparecem nas dobras dessa aventura de
realização pessoal. É a Itália profunda que aparece no filme, para quem
quiser vê-la.
No final das contas, o caráter “político” do cinema depende tanto da
sensibilidade social do artista quanto do olhar do espectador. Como sugerem
os nossos entrevistados, a política no cinema é um pouco como o sertão de
Guimarães Rosa: está em toda parte.

Confira os filmes da Retrospectiva Cinema Político Italiano,
da 30.ª Mostra,no site www.estadao.com.br

Investigações sobre um Certo Gênero: cinco perguntas para três pensadores

1 O cinema comercial hoje em dia é mais voltado para o entretenimento do que
para a reflexão e o distanciamento crítico. Nesse quadro, haveria espaço
para o cinema político, como houve nos anos 60 e 70?
Walnice – Perfeitamente, e temos abundância dele vindo de todos os
quadrantes. Justo porque o cinema se tornou exclusivamente entretenimento, é
muito mais urgente hoje ressuscitar o cinema político, e a essa tarefa se
dedicam cineastas de diversos países.
Janine – Fica difícil, mas olhemos abaixo da superfície. Nove Rainhas é um
filme político? A história toda parece ignorar a política, mas o filme
mostra um país em forte crise ética, com todo tipo de trambique, culminando
na quebra de bancos. O Filho da Noiva é mais explicitamente político –
aliás, a única falha nesse filme é que ele é coisas demais, padece de um
certo excesso. Para ser político, nenhum desses filmes precisava falar de
Menem, dos militares, etc.
Olgária – Se o filme é bom, ele atende à sensibilidade e à consciência, bem
como ao entretenimento.

2 Cite alguns dos seus filmes políticos preferidos, tanto nacionais como
estrangeiros, e explique os motivos das escolhas.
Walnice – Deveriam fazer parte do currículo do ensino médio: Queimada (para
ensinar colonialismo), A Batalha de Argel (para mostrar quanto custa uma
revolução), Z e Missing (sobre terrorismo de Estado), Operação Canadá, de
Michael Moore (uma tremenda sátira, de morrer de rir, sobre o imperialismo
norte-americano), Os Companheiros, de Monicelli (sobre classe operária e
militância), Olga e Diários de Motocicleta (ambos sobre a formação do
revolucionário/a). Dançando no Escuro e Dogville, de Lars von Trier (pela
análise da crueldade a que as pessoas são sujeitas dentro das regras do jogo
do sistema em que vivemos). Ken Loach com Riff Raff e Pão e Rosas (aulas
sobre as durezas da vida dos trabalhadores, imigrantes ou não, nos países
ricos). Como fecho de ouro para a lista: O Encouraçado Potemkin. E garanto
que deixei de fora bem uns 20 de meus filmes políticos preferidos.
Janine – Com o que eu disse, vou citar filmes não usuais: Corra, Lola, Corra
mostra o empenho de uma jovem rica para salvar o namorado meio bandido e
muito burro; são várias tentativas (isso, o fascinante) até que dá um
resultado. Femme Fatale mostra a escolha que uma mulher – também nesse caso,
criminosa – pode fazer de seu destino. Minority Report tem um pouco esse
mesmo panorama, mas com idéias geniais, como a do controle do criminoso
antes mesmo de ele cometer seu ato. Carandiru mostra as estratégias de
sobrevivência e de redenção num quadro extremamente adverso. Nenhum deles
talvez mencione o nome de um governante sequer, mas por que a política tem
que se dar nos quadros do poder institucional?
Olgária – A Batalha de Argel, e também esse filme do Costa Gavras que passou
há pouco sobre os assassinatos em série do protagonista para alcançar o
posto na empresa em que trabalha e eliminar os concorrentes (O Corte). No
primeiro, toda a questão do império francês e o que a dominação e a opressão
política gera, pela arrogância, prepotência e arbítrio, ressentimento e
terror; o segundo, pelo diagnóstico amargo e lúcido das premissas e
conseqüências de um estilo de vida no mundo contemporâneo que fazem dos
ideais de solidariedade e fraternidade entre os homens uma obsolescência e
como esquecemos, progressivamente, a razão de se viver junto em um espaço
comum compartilhado de bem-estar material, moral e estético. Há tantas
fitas, entre as mais recentes, Amantes Constantes, de Philippe Garrel,
sugere que uma revolução não se caracteriza pela tomada violenta do poder,
mas transformação de consciência e de desejos, instituição de novos valores,
etc. Ou então Estamira, que é uma das fitas mais comoventes, ninguém pode
permanecer externo ao que vê, ele faz parte dessa configuração espiritual
que pode contribuir a fazer de nós pessoas melhores diante da generosidade
das pessoas simples que transfiguram, por sua alquimia, dor em beleza e as
distribui para o mundo.

3 O filme político deve ser explícito para ser eficaz (como por exemplo
Fahrenheit – 11 de Setembro, de Michael Moore) ou há espaço para a sutileza
nesse gênero de filme?
Walnice – Há lugar para ambos, os explícitos e os sutis (que são numerosos).
Janine – Penso que a explicitação excessiva não é necessariamente útil.
Moore é criticado por encaixar demais os fatos no seu esquema. Penso que o
que faz político o cinema é ele ajudar a pessoa a se sentir e fazer ativa e
não passiva. Isso nem mesmo precisa de uma narrativa sobre o poder. Sartre,
muito tempo atrás, comparou um romance em que se falava o tempo todo do medo
da catástrofe nuclear a outro que, sem mencionar sequer a bomba atômica,
transmitia o temor que o primeiro livro não conseguia.
Olgária – Quando o cinema ou outra realização cultural são literais,
tendendo a reiterar padrões esperados, que não permitem sair do senso comum,
freqüentemente criado no contexto informativo das mídias, sem não
surpreender, pode, no limite, tranqüilizar nossa má consciência, não tem
grande interesse,responde mais a um público que é “mercado”.

4 Existe quem diga que o cinema político anda fora de moda porque o próprio
debate político na sociedade se esvaziou. Você concorda com essa idéia?

Walnice – Ao contrário, o esvaziamento pode provocar a reflexão política por
parte do cinema. Basta ver a esplêndida safra de filmes políticos deste ano
de 2006, provenientes de onde menos se esperava: dos EUA.
Janine – O cinema político não precisa ser diretamente político. Dei um
curso em Columbia University, em 2004, e pensei muito o que eu podia dizer
sobre o Brasil que não fosse miséria, etc. Ora, o cinema brasileiro – como o
argentino, como outros – tem tematizado situações em que um indivíduo ou um
grupo se vê diante de um impasse, e o supera (ou não). Quando a crise
envolve uma pessoa só, costumamos dizer que a questão é ética, e que é
política quando envolve mais gente. Mas, sempre, está o princípio básico do
político, que é a pessoa (individual ou coletiva) tornar-se sujeito de sua
ação, em vez de ser joguete das circunstâncias. Isso vale para Femme Fatale,
que em nada parece ser um filme político, como para Kamchatka, obviamente
político, a comédia Nove Rainhas, o drama Bicho de Sete Cabeças, o filme
Cidade de Deus e muitos outros.
Olgária – Penso que o “cinema político”, se for cinema, isto é, parte das
belas-artes, nos faz pensar e elaborar esteticamente o nosso mundo externo e
interno. Dizer que o “cinema político” anda fora de moda é como dizer que a
música atonal ou dodecafônica, ou o nouveau roman e a literatura
contemporânea puseram fora de moda o romance narrativo, ou então a arte da
figuração envelheceu em razão do abstracionismo ou da arte conceitual. Se
for bom cinema não envelhece, é datado e não datado ao mesmo tempo.

5 Já se disse que um cineasta eminentemente político, como Costa-Gavras, faz
um cinema necessário, porém convencional na forma. Cinema político seria
incompatível com invenção de linguagem?

Walnice – Não, por quê? Nada é incompatível com a invenção de linguagem
(vide Eisenstein).
Janine – Não vejo por que, a não ser que consideremos que deseja atingir um
público mais amplo e, para isso, usa procedimentos de sucesso garantido. Mas
isso vale para qualquer tipo de cinema.
Olgária – Não poderia responder com segurança quanto à “invenção de
linguagem”, mas, em princípio, não necessariamente a “convenção” faz mau
cinema, pode haver soluções desestablizadoras como na fita A Inglesa e o
Duque, de Eric Rohmer, inverte o código do vencedor e do vencido, do
povo-vítima e do aristocrata-mau-caráter, etc. Opera à maneira dos
moralistas franceses do século 17, diz o inesperado, daí sua “eficácia”.

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