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Questão de gosto *

Luiz Zanin Oricchio

22 de maio de 2012 | 17h29

Só espero que depois do chato endeusamento do Barcelona não surja agora um ainda mais tedioso elogio ao futebol-força do Chelsea. Só por que ganhou? E isso é motivo suficiente?

Se alguma lição há a tirar da vitória do time inglês sobre o Bayern é a de sempre – os caminhos do futebol são múltiplos. Pode-se vencer ou perder jogando bonito; pode-se perder ou vencer jogando feio. Há times empolgantes que perdem e times monótonos que vencem. Não existem garantias, seja como for e, claro, esse é o encanto maior do futebol.

O outro encanto é que, mesmo de um jogo feio, podemos tirar emoção como aconteceu na própria decisão da Champions. A partida, em si, foi pífia. Mas como negar o encanto na maneira como ela se decidiu – com o gol de última hora de Drogba, que a levou para a prorrogação; o pênalti cometido pelo mesmo Drogba e perdido por Robben; a decisão por pênaltis, na qual a última cobrança coube … a quem senão a Drogba? Quer dizer, o marfinense virou salvador ao empatar o jogo; candidatou-se a vilão ao cometer o pênalti; confirmou-se herói ao terminar com imensa categoria a série de pênaltis. Foi de arrasar. Já o jogo, visto tecnicamente, a frio, não foi nada de mais.

Tudo isso aconteceu porque se tratava de uma partida final, em que vale o tudo ou o nada. Mas o que aconteceu na Alemanha se deve também à própria estrutura do jogo, errática, propensa a paradoxos insondáveis e permeável aos acasos. Não por outro motivo Nelson Rodrigues dizia que a mais sórdida pelada era de uma complexidade shakespeariana. É que, artista antes de cronista, Nelson via o drama, quando não a tragédia que se oculta atrás do jogo.

Esse potencial dramático se expressa de qualquer forma – no jogo feio ou no jogo bonito; com craques em campo ou sem eles; num gramado perfeito ou num charco, como aconteceu por exemplo na mitológica virada do Santos sobre o Milan, 4 a 2, em 1963, num Maracanã de polo aquático, palco da provavelmente mais emocionante partida de todos os tempos.

Mas é claro que, mesmo sendo tão generoso o futebol, podemos preferi-lo em sua modalidade mais estética. Mais divertida. A que mais se aproxima a uma das belas artes. Em suma, o futebol consolidado e consagrado aqui no Brasil já há tantos anos, e agora em desuso, transformado em raridade. A velha escola brasileira, que ressurge de tempos em tempos no jogo ousado de alguns moleques geniais que ousam desafiar a rigidez de esquemas táticos dos “professores”.

A escola brasileira é uma questão de estilo. E estilo vencedor. Porém, não imbatível. A questão a ser vista é a aposta nessa, digamos assim, identidade futebolística, um jeito de jogar, uma maneira de expressar o que somos, ou talvez o que desejaríamos ser, uma insistência nessa marca registrada, mesmo sabendo que ela não é imbatível, como as outras também não o são. Para mim, o encanto maior do futebol está no encontro entre escolas de jogo radicalmente opostas, cada qual com suas virtudes e pontos frágeis. E o pesadelo maior, a uniformização de todos os estilos divergentes num estilo único, numa espécie de fast food futebolístico. Nada a imitar, portanto, no Chelsea. Nem na forma de jogo e, muito menos, no modelo de negócio, por favor.

* Coluna Boleiros, publicada no Caderno de Esportes do Estadão

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