As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Quem tem medo do ‘Lobo de Wall Street’?

Luiz Zanin Oricchio

24 Janeiro 2014 | 11h35

 

O Lobo de Wall Street, essa comédia farsesca sobre a ambição, tem como protagonista um personagem execrável, o especulador Jordan Belfort. A figura é péssima; o filme é ótimo.

Belfort, personagem real interpretado por Leonardo DiCaprio, escreveu suas memórias. Conta suas aventuras no mercado financeiro, de como enriqueceu com fraudes contra pequenos investidores e, depois de apanhado, passou a colaborar com o FBI para melhorar sua situação na justiça. A história é patética.

Belfort é um crápula, que tem sua trajetória esmiuçada em três horas de filme brilhantemente dirigido por Martin Scorsese. O fato de Scorsese, mestre maduro, ter voltado ao vigor de seus grandes trabalhos como Os Bons Companheiros, Touro Indomável, Cassino ou Os Infiltrados, levantou a suspeita, meio ingênua, de simpatia em relação ao personagem.

Ora, não poderia haver retrato mais devastador de um patife do que este traçado de Jordan Belfort por Scorsese através de DiCaprio. Cínico, amoral, drogado, alguém para quem seu semelhante, homem ou mulher, não vale um tostão furado, Belfort ostenta também aquele charme nada discreto dos canalhas absolutos. Olhamos para ele com certa curiosidade e, (por que não? ) algum fascínio. Ou alguém poderia negar que, na complexidade da mente humana, o mal também pode ter o seu charme?

Como faz filmes para adultos, Scorsese não esconde essa ambivalência. A começar pelo fato de a história ser narrada pelo próprio protagonista, em primeira pessoa, e muitas vezes olhando diretamente para a câmera. Como se ele reafirmasse, a cada um de nós, o que sua trajetória tem de interessante. Além disso, Scorsese faz a história boiar o tempo todo entre o trágico e o cômico. Belford é torpe a ponto de promover no escritório um concurso de arremesso de anões ou pagar 10 mil dólares a uma funcionária para que ela permita ter a cabeça raspada em público. Moral da história: o dinheiro compra tudo.

A essas passagens repulsivas contrapõem-se cenas engraçadas, como aquela em que Belfort está tão chapado que a única maneira de descer uma escada para pegar a sua Ferrari branca é jogar-se degraus abaixo. Também são hilários os diálogos entrecortados entre o especulador e o banqueiro suíço (Jean Dujardin, de O Artista) que vai colocar seu dinheiro sujo numa higiênica conta numerada.

Enfim, o que se tem em O Lobo de Wall Street é um retrato anatômico do mundo da alta finança e do desdém pelos estragos causados pela busca desenfreada de dinheiro fácil. Desde a crise mundial de 2008, provocada pela especulação, esse tipo de obra vem encontrando espaço no mercado cinematográfico. Filmes de ficção como Margin Call ou O Capital, e documentários como Trabalho Interno buscam refletir sobre esse mundo em que o mercado financeiro se descolou da economia real e multiplica seus estragos (estes sim, bem reais). Mas nunca, até agora, o cinema tinha ido tão longe ao retratar esse mundo em sua intimidade. É chocante? É. Só alguém criado em Little Italy, acostumado a ver o que os homens podem fazer com seus semelhantes quando em busca do lucro fácil, poderia pintar um quadro de cores tão aberrantes. Mas perto da alcateia de Wall Street, os mafiosos de Os Bons Companheiros parecem até gente fina.

Na mais caridosa das hipóteses, Belfort seria uma excrescência, um subproduto doentio do sistema. A outra interpretação é que Belfort seria a expressão perfeita do sistema quando levado às últimas consequências. Tal é a mensagem subversiva de Scorsese, que o pensamento politicamente correto, escandalizado com a aparência dissoluta dessa história exemplar, não consegue enxergar.