Quem tem medo do Dragão da Maldade?
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Quem tem medo do Dragão da Maldade?

Luiz Zanin Oricchio

30 de maio de 2008 | 16h11

dragao

Depois de um trabalhoso processo de recuperação, chega de novo à tela grande aquele que talvez seja, dos filmes de Glauber Rocha, o mais conhecido e apreciado no exterior – O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro. A restauração do longa faz parte do processo contínuo de recuperação e divulgação da obra de Glauber, e será acompanhado do lançamento de uma preciosa caixa de DVDs contendo, além do próprio Dragão da Maldade, Barravento, Terra em Transe e A Idade da Terra. Em São Paulo, a caixa será lançada dia 20 de junho na Sala Cinemateca. Os quatro filmes têm cópias restauradas digitalmente e vêm acompanhados de muitos extras, entrevistas, depoimentos e fortuna crítica dessa obra sempre tão polêmica.

O Dragão da Maldade apresenta algumas peculiaridades. Quarto longa de Glauber, é também o seu primeiro em cores, na bela fotografia de Affonso Beato. Representa, também, uma tentativa de diálogo maior com o público. Tanto assim que O Dragão da Maldade é conhecido como aquele filme de Glauber do qual mesmo seu detratores gostam. E, de fato, ele é, digamos assim, menos ”rugoso” que obras como Terra em Transe (1967) ou A Idade da Terra (1980), filmes em que Glauber aprofunda sua ruptura com a narrativa clássica e impõe descontinuidades, um tom épico paradoxal e distanciamento crítico radical – características que dificilmente seduzem o público médio em sua busca de entretenimento e evasão.

O esforço de Glauber valeu o reconhecimento do Festival de Cannes, que lhe atribuiu o prêmio de direção em 1969. No mesmo ano, o filme foi capa da Cahiers du Cinéma. Curiosa sincronia: a primeira capa colorida da Cahiers para o primeiro longa em cores de Glauber Rocha.

E O Dragão da Maldade tem nesse colorido um recurso de linguagem importante. Glauber queria cores explodindo na tela, cores tropicais fortes e não o matizado da paleta européia. Como fizera antes com o preto-e-branco, estourado pela luminosidade intensa do Nordeste dos primeiros filmes, neste apresenta as ”cores do Terceiro Mundo”, saturadas, sem concessões ao barroquismo que desejava imprimir à sua obra, mesmo sendo naquela em que buscava comunicar-se com público mais amplo.

De Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), Glauber importa seu personagem mais conhecido, Antonio das Mortes, mais uma vez interpretado por Maurício do Vale (1928-1981). Ele ressurge, sempre acompanhado da canção célebre de Sérgio Ricardo, para combater o cangaceiro Coirana (Lorival Pariz), tido como reencarnação de Lampião. A comunidade de Jardim das Piranhas é formada de seres emblemáticos, representativos das diferentes camadas sociais. Jofre Soares é o coronel; Odete Lara, sua amante; Hugo Carvana faz o delegado Matos, autoridade fraca, sujeita ao poder real representado pelo coronel; Othon Bastos é o professor, a consciência crítica, hesitante e por fim determinado à ação. A questão é a da escolha – de que lado Antonio irá ficar? Do lado do latifundiário, que lhe paga para se livrar do cangaceiro e seguidores, ou de um hipotético ”povo”, aglutinado por cantos e ritos? Enfim, povo ainda em formação, sem ”consciência-de-si” para usar o termo específico. A situação toda é muito complexa e não se esgota na banalidade de um duelo entre o bem e o mal, como daria a entender o título e mesmo os propósitos do diretor. Aqui, tudo é contradição e violência; êxtase e beleza.

(Caderno 2, 30/5/08)

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