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Quem se importa e o empreendedorismo social

Luiz Zanin Oricchio

18 de abril de 2012 | 00h13

Quem se importa? É a interrogação (retórica) do filme de Mara Mourão, ao refazer a pergunta inglesa (who cares?) a respeito da desordem do mundo. A resposta será imediata: muita gente se importa com temas como a pobreza, a poluição, a falta de saúde, a injustiça. Essa gente que faz não age em nome de governos ou  ideologias políticas. São seres autônomos, que se organizam e tentam mudar as coisas. Em outra época, seriam chamados de filantropos; hoje escolhem a denominação de empreendedores sociais.

Onde agem? Em hospitais para crianças doentes, alegrando-as (é o caso do próprio marido de Mara, Wellington Nogueira e seu projeto Doutores da Alegria); é o caso do empresário criador de microcréditos para pessoas muito pobres, em geral à margem do sistema bancário. Outro, um médico, projeta um serviço de atendimento inédito na Amazônia, em lugares de difícil acesso. Outro brasileiro funda uma comunidade, na qual a pequena economia se retroalimenta e assim sobrevive. Uma norte-americana larga a carreira promissora e viaja mundo tentando dar assistência jurídica a pessoas injustamente presas; começa pelo Camboja e tenta chegar à China.

São todas iniciativas meritórias, sem dúvida. Quem pode ser contra a prática do bem? Às vezes, no entanto, as soluções parecem óbvias demais. O documentário contempla os sucessos, nunca os tropeços. Temos dificuldade em entender por que motivo, sendo tão evidentes e fáceis as soluções de certos problemas crônicos, eles ainda não foram resolvidos. É verdade também que muitos dos depoentes assumem um ar beatífico, típico dos gurus. A música e o quadro de fundo das entrevistas, decorado com revoadas de pássaros virtuais, não ajuda. Há música melosa. E vai por aí.

Nada disso no fundo é novo, mas pessoas de boa vontade são sempre bem-vindas. Ainda mais em tempo de individualismo atroz como “filosofia” de vida dominante. Esse empreendedorismo social, no entanto, deve ser compreendido. Ele parece fruto do desencanto com governos e ideologias de qualquer espécie. Baseia-se num voluntarismo do bem e volta as costas para qualquer política – a não ser as micropolíticas de intervenção local. Acredita piamente na ação em casos específicos e na multiplicação espontânea dos seus agentes, uma espécie de corrente que, em certo prazo, seria capaz de mudar o planeta. Não faz uma crítica estrutural do modelo econômico dominante, apenas deplora seus efeitos – como se uma coisa estivesse desligada da outra. Enfim, como definiu um desses personagens, o empreendedor social é um misto do capitalista ávido de lucro com Madre Teresa de Calcutá. É preciso ver se personagem tão contraditório para em pé.

 

 

 

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