Quem são os estranhos que vivem entre nós?
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Quem são os estranhos que vivem entre nós?

Novo filme de Jordan Peele, 'Nós', reflete o temor contemporâneo do outro em sociedades dominadas pelo medo e pelo ressentimento

Luiz Zanin Oricchio

21 de março de 2019 | 19h21

 

 

Depois de Corra!, que lhe valeu um Oscar de roteiro, Jordan Peele volta com outro terror de conotações sociais. Adelaide (Lupita Nyong’o) retorna à casa de verão de sua infância com o marido e dois filhos. Lá a família se depara com quatro personagens clones deles mesmos, embora com sinais trocados. Clara alusão ao mal-estar social que levou à eleição de Donald Trump, semelhante à que se passa no Brasil.

Esboçada em poucas linhas, a sinopse não dá conta da impressão causada pelo filme. Logo na abertura, vemos Peele como um refinado criador de climas e inquietações. Nada, no entanto, no “texto”, explica essa perturbação. Trata-se apenas de uma garota num parque de diversões, em 1986, acompanhada pelo pai. Com uma maçã do amor na mão, a criança se afasta para explorar o ambiente. Assim fazem as crianças nessa arte de se perder que é a infância.

Nada é muito estranho, nem mesmo quando ela entra num desses brinquedos de parquinho de diversões, uma sala de espelhos. Uma inscrição diz que lá “você se encontra consigo mesmo”. E a experiência que a menina tem lá dentro é essa, a de um duplo de si. Uma imagem no espelho. Mas, como, se ela olha a outra de frente e esta aparece de costas?

Enfim, esse prólogo é marcado pela construção de uma situação inquietante, devido à maneira como a câmera espreita o ambiente, segue as pessoas, e uma trilha sonora quase subliminar começa a mexer com os nervos do espectador.

Mas depois passa-se para o tempo presente e a menina de 1986 agora é uma jovem mãe de família. No carro, junto do marido e o casal de filhos, dirige-se para a casa de veraneio. Conhecemos esse ambiente familiar em registro natural, a própria imagem da normalidade e da estabilidade. Qualidades do equilíbrio, claro, que serão quebradas de maneira sistemática. Isso acontece quando outra família igualzinha – pai, mãe, dois filhos – aparecer na varanda da casa, sem dizer palavra.

Sem avançar o sinal do spoiler, pode-se dizer que o filme tem na parte de ação seu feitio mais convencional. Mas é só. O resto, ou melhor, o todo, é bastante inesperado e inquietante.

Jordan Peele joga com o tema do duplo, o que não chega a ser propriamente uma novidade, já que fascina os criadores há muito. Das lendas germânicas do Doppelgänger a Dostoievski e Borges, passando por Stevenson, muitos escritores a ele dedicaram algumas de suas melhores páginas. Quem é esse outro de mim, que pode ser fascinante e assustador ao mesmo tempo? Que verdade ele guarda sobre mim, que eu mesmo não tenho coragem de encarar?

A originalidade de Peele consiste em construir essa espécie de “outro” numa dimensão social, facilmente assimilável àqueles ocupantes do lado sombrio da sociedade. Os que ficam com a pior fatia, ou com fatia alguma, e se multiplicam na sombra (ou no submundo), alimentados de sofrimento e ressentimento. Tudo vem à tona, como a lava de um vulcão que sobe à superfície.

E vem num momento em que, em nossa perplexidade, refletimos sobre o poder de sedução de personalidades tão delirantes e violentas, como Trump e outros, capazes de catalisar de forma tão perfeita esse sentimento complexo que é o ressentimento.

Daí esse sentimento de estranheza que temos diante de nossos semelhantes, de gente que anda na rua e se parece conosco. “Como foram capazes de cometer tamanha sandice?” O que se pode esperar depois disso? Teremos coragem de virar nossas costas para eles, especialmente se desconfiamos que têm uma faca nas mãos?

Essa, a arte da coisa. De repente o mundo, de familiar, torna-se estranho e hostil. Este nosso mundo. Jordan Peele constrói uma obra que simboliza essa estranheza e dá a ela um toque adicional de inquietude e cunho político com o twist final, no que ele tem de grandioso e patético. Afinal, Nós (US) é também US (United States).  

O horror se adensa e cresce com o desfecho da história. Tal como o nosso horror atual, que parece não ter fim e muito menos final feliz. Happy ending, afinal, é para trouxas.  

 

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