Quem quer ver pobre na tela?
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Quem quer ver pobre na tela?

Luiz Zanin Oricchio

19 de fevereiro de 2009 | 11h18

mutum

Coloco esse título em função da crítica (simpática) de Mutum na revista Cahiers du Cinéma de janeiro. Elogiando o filme de Sandra Kogut, a crítica Elizabeth Lequeret (connais pas…) fala do personagem principal, Thiago, tirado do texto de Guimarães Rosa, e diz que a sua vida certamente não é um paraíso, mas ela não cabe nos limites estreitos do inferno favelizado “com os quais os filmes brasileiros fazem seu fundo de comércio”.

Pelo que sei, é a primeira vez que o suposto miserabilismo do cinema brasileiro vê-se atacado na França. Mais adiante, a articulista acrescenta que a bela idéia do filme é registrar a pobreza como um dado da existência e ver que a miséria não esmaga o indivíduo sob seu peso de chumbo, mas que este resiste às condições inumanas.

O assunto é vasto, você sabe, e remete a várias questões. A primeira: deve-se, pode-se, filmar a pobreza? Sabemos a resposta reacionária imediata: “com tanta coisa bonita para mostrar, vocês vão buscar logo o pior para apresentar o Brasil lá fora?” Por sorte (ou azar) esse tipo de argumento não é privilégio nosso: os italianos, parte deles, disseram a mesma coisa de Gomorra, de Matteo Garrone, filme sobre a máfia napolitana.

Atravessada essa primeira etapa, chega-se à segunda: já que se pode mostrar a pobreza, como representá-la?

Lembremos do quebra-pau que ocorreu quando do lançamento de Cidade de Deus e sua suposta cosmetização da miséria e da violência (este outro problema: associar pobreza e violência). Bem, não é de hoje que o cinema se ocupa da pobreza. Basta lembrar do neo-realismo italiano em filmes como Roma Cidade Aberta, Ladrão de Bicicletas, Milagre em Milão, etc. No Brasil, a miséria foi tratada de forma política pelo Cinema Novo, em filmes como Vidas Secas, Deus e o Diabo no Terra do Sol, Os Fuzis. Importava aqui menos a miséria em si do que seu potencial de despertar consciências para a luta.

Muitos anos depois, ao retratar favelas e sertão, veio essa acusação de que os cenários haviam se despolizado com o passar do tempo, e restara aos filmes uma certa cosmética, a “beleza” dos pobres, a estética da miséria. Não só no cinema ouviu-se essa acusação: Sebastião Salgado não escapou à chibata. Mas creio que o fato de ter-se associado a comunistas notórios, como José Saramago, tenha piorado sua imagem aos olhos da direita política.

Enfim, representar (nos dois sentidos do termo) os pobres é sempre perigoso, uma atividade cheia de riscos. Podem chamá-lo de demagogo, populista, interesseiro, porque estaria ganhando dinheiro à custa do sofrimento alheio, etc. Essa é a pequena discussão.

A mais interessante, a meu ver, se refere à ética das imagens e esse é um trabalho de debate ainda por ser feito. Vai além do Brasil, e além da pobreza e da miséria. Refere-se também à fotografia da violência, em guerras, ou na situação de tortura. Por exemplo, tiveram tremendo impacto (e conseqüências) as fotos de humilhação de prisioneiros em Abu Ghraib tomadas pelos próprios torturadores. Até que ponto a divulgação de imagens é feita no interesse das vítimas ou até que ponto beneficia apenas a quem as divulga? Toda a discussão passa por aí.

E não por carolices em aparência ingênuas e, no fundo, muito sórdidas do tipo “temos coisa melhor para mostrar”.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.