Quem é Primavera das Neves
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Quem é Primavera das Neves

Luiz Zanin Oricchio

24 Abril 2017 | 11h08

 

primavera

Um diretor de cinema tem a curiosidade despertada pela sonoridade poética de um nome, o da tradutora de Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho, de Lewis Carrol. Procura por esse nome no Google. Encontra uma única menção. Escreve um artigo no blog da sua produtora (http://www.casacinepoa.com.br/o-blog/jorge-furtado/quem-%C3%A9-primavera-das-neves) , formulando a pergunta: Quem é Primavera das Neves?  Faz pesquisas na hemeroteca da Biblioteca Nacional. Tempos depois, uma senhora insone, saudosa da amiga, faz a mesma pesquisa no Google e encontra o link do blog. Entra em contato com o diretor e, desse encontro, nasce essa joia preciosa, Quem é Primavera das Neves, dos diretores gaúchos Ana Luiza Azevedo e Jorge Furtado.

Nesse típico documentário de busca, a dupla de cineastas põe-se a campo para descobrir uma personagem e tanto, até então desconhecida. Concentram-se em poucos entrevistados, duas ex-colegas de ginásio, um ex-marido. E, através dessas falas, mas também de cartas, fotos (poucas), imagens, recursos gráficos e poesias escritas por Primavera (e faladas, com doçura, por Mariana Lima) esboçam um perfil que, se não é completo (nenhum o é) parece vívido e límpido.

Não se trata de resumir o resultado dessa busca e tirar do espectador o prazer de segui-la passo a passo quando vir o filme. Basta dizer que, por trás do anonimato, muitas vezes se escondem grandes vidas. Ou, se quisermos carregar um pouco na tinta, podemos apostar que as pessoas de fato interessantes são as que vivem discretamente e não as que encontramos todo santo dia nas manchetes de jornais e TV, e nas colunas de celebridades.

Através do fio de vida de um personagem, inevitavelmente arrastam-se as contingências históricas da sua trajetória. Nesta, temos a curiosa mescla de uma vida inteligente, levada na delicadeza da literatura, da música, da amizade, da escrita poética, mas também enfrentando contingências políticas de ditaduras em dois países, exílios, mudanças bruscas e inesperadas de direção.

A forma como o material é captado expressa a inteligência, a capacidade dos diretores em ir ao essencial. A maneira como é montada (por Giba Assis Brasil, sempre) dá ao filme o tom de um thriller gentil envolvente. Não deixe de ver.

Obs. Se me permitem uma observação subjetiva, quero registrar a sensação de prazer e de serena alegria que este filme me proporcionou quando o vi ontem à noite no Cinearte. Quando a projeção terminou, me perguntei por que havia gostado tanto, além de suas óbvias qualidades humanas e cinematográficas. A resposta me pareceu muito fácil: um filme como este nos arranca da brutalidade do cotidiano a que estamos submetidos. A acreditar no que lemos, ouvimos e vemos, dia a dia, o Brasil parece um país composto por patifes, canalhas, fanáticos, cafajestes e aproveitadores. Custa crer que, no silêncio, ainda existam pessoas que levam suas vidas de maneira honesta e produtiva, curtam a literatura, a música, as artes, que sejam amigos de seus amigos e possam aproveitar o domingo de sol com os filhos num parque da cidade. Mas existem sim, e às vezes a arte precisa nos lembrar de que o recorte que a mídia produz da existência não necessariamente espelha a realidade.

 

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