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Quem disse que é fácil?

Luiz Zanin Oricchio

30 de julho de 2008 | 20h59

Aldo (Diego Peretti) é um controlador perfeito. Dono de uma oficina, tem suas casas de aluguel, exerce vigilância sobre seus funcionários, faz ginástica todos os dias e leva vida regrada. Andrea (Carolina Peleritti) é uma jovem sensual, andou pelo mundo, viveu em vários países, teve dezenas de namorados e ganha a vida como fotógrafa. Um homem como esse pode se sentir atraído por uma mulher como essas? Esse é o ponto de partida da comédia romântica argentina Quem Disse Que É Fácil?, de Juan Taratuto.

Um filme agradável e despretensioso – diga-se logo de entrada. Não interessa a Taratuto fazer aquele tipo de cinema que chama a atenção para as acrobacias da direção. Nem se preocupa em tratar dos grandes temas políticos ou do destino da humanidade. Nada disso. Centra-se na questão do casal e num desses motivos tão antigos quanto o próprio cinema – a atração entre diferentes, com tudo o que ela comporta de prazer, mas também de desconforto.

Tudo isso poderia resultar num filme óbvio, mas não é bem o caso. É que, por trás do aparente “bom comportamento” do diretor, escondem-se algumas idéias modernas e libertárias. Há quem se gabe do controle, da medição racional que se faz da vida e da conduta; do planejamento acima de tudo, do racionamento das emoções para que se evitem sofrimentos inúteis, etc. A posição de Taratuto, em seu filme, é francamente a favor do risco.

Sem fazer de Aldo um personagem caricato (pelo contrário, ele pode parecer bem simpático), o diretor mostra o quanto uma vida que não se abre para o imprevisto pode se tornar pobre. Aldo terá muito a aprender daquela que representa o contrário do seu temperamento. Mesmo que ela, num dos melhores diálogos do casal admita que, ele se trancando em si e ela vagando pelo mundo, eram duas faces da mesma moeda – dois incapazes de enfrentar a vida de fato.

Se a solução parecer apaziguante ao espectador, ele deverá pensar que ela se dá num quadro bem típico do nosso presente. As pessoas se voltam para si, desistem das causas coletivas e procuram construir um espaço de paz interna. É a revalorização da família, questionada nos anos 60, e que agora recupera seus direitos. À parte isso, é diversão garantida.

(Caderno 2, 30/7/08)

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