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Queda no vazio

Luiz Zanin Oricchio

03 de junho de 2009 | 12h10

Como todo mundo fiquei chocado com o acidente da Air France. Vários motivos. Brasileiros a bordo, pelo menos um conhecido, o maestro Silvio Barbato entre as vítimas, franceses, gente de todo lugar. Mais: é a empresa que prefiro quando vou à Europa, como tenho feito nos últimos anos. Mas, ao contrário de amigos, não me sinto mais nem menos seguro em determinadas companhias de aviação do que em outras. Apenas acho a Air France mais confortável e simpática. Gosto da França. Mas já andei de Tupolev na ex-União Soviética e fui a Havana diversas vezes em jatos jurássicos da Cubana de Aviación. A primeira vez que fui à Europa foi nas asas da LAP – Líneas Aéreas Paraguaias, num jato que parecia incapaz de me levar de São Paulo a Assunción. Já tomei sustos, mas nada de mais grave. Viajo muito (mas já viajei mais) e não tenho medo. Apenas tédio, em especial dos aeroportos pós 11 de setembro. Também não me agrada ficar confinado no espaço exíguo dos aviões. Mas, enfim, viajar faz parte da profissão.

A cada vez que acontece uma tragédia aérea, duas coisas se repetem. Primeiro, a reafirmação, paradoxal para as circunstâncias, de que viajar de avião é muito seguro, que você tem mais probabilidades de morrer no trânsito louco de São Paulo, ou mesmo subindo no elevador da firma, do que numa dessas maravilhas tecnológicas. Segundo, a obsessão em saber as causas do acidente.

A primeira me parece excessiva. Faz parte das mentiras estatísticas, porque um acidente de avião pode ser raro mas é na base do tudo ou nada. Você não escapa. A segunda é normal; precisamos saber. Mas a maneira como aspectos técnicos viram notícias e conversas de botequim aponta para outra razão. É como se estivéssemos nos reassegurando, lá em nosso íntimo, de que alguma coisa falhou, e feio, para que uma dessas máquinas “perfeitas” se precipitasse nas águas e levasse tantas vidas junto. A falha é a exceção. Como se a descoberta dessas falhas, ou, de preferência, de uma delas em particular, pudesse prevenir, no futuro, outras ocorrências trágicas do gênero. É um trabalho mais de apoio psicológico do que técnico, no fundo.

Como se sabe, vivemos em busca da segurança absoluta. Mesmo no mais inseguro dos mundos (mas talvez por isso mesmo), precisamos acreditar que não iremos ser assaltados em casa ou na rua, que a ciência médica irá descobrir no início se algo não vai bem em nosso corpo para em seguida curá-lo, que trens não irão descarrilar, que os freios ABC de última geração farão o carro parar, que os computadores não darão pau, que os aviões de carreira voarão em céu de brigadeiro. Um mundo perfeito que, claro, só existe no nosso desejo.

Me lembrei esses dias de um trecho do romance O Falcão Maltês, de Dashiell Hammett. É uma passagem secundária, sobre o personagem que um dia está andando por uma rua e por pouco não é esmagado pela queda de um andaime num prédio em construção. Com a experiência da morte próxima e gratuita (um passo a mais ou a menos e estaria morto) muda de vida. Larga tudo, mulher, emprego, filhos e vai viver em outra parte do país. Anos mais tarde, alguém o reencontra. E nota que ele se casou de novo, com uma mulher muito parecida com a primeira, teve outros filhos e trabalhava na mesma profissão de antes. Quem conta a história é Sam Spade, o detetive de Hammett vivido por Humphrey Bogart no cinema. Spade conclui que o homem precisou se acostumar a um mundo no qual os andaimes caem e depois se habituar a um mundo no qual os andaimes não caem.

Penso muito nessa história. Nossa vida está sempre por um fio, embora não gostemos de admitir.

Adendo: Chamo a atenção para o belo artigo de Eugênio Bucci na página 2 do Estadão. Em Essa Viagem para o Vazio ele sugere que o noticiário faz parte do trabalho de luto por mortos cujos corpos provavelmente jamais serão recuperados. Leia aqui.

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