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Que venha o futebol bonito *

Luiz Zanin Oricchio

07 de maio de 2013 | 18h14

O título é obviamente motivado pelo fato de os dois jogos semifinais do Campeonato Paulista não terem sido bons. Nada bons. Aliás, para falar a verdade, tanto Mogi Mirim 1 x 1 Santos como São Paulo 0 x 0 Corinthians foram muito chatos. Ambos foram “salvos”, no limite, pelas cobranças das penalidades máximas, que, pelo menos, proporcionam emoção aos torcedores. Mas não podemos contar com pênaltis para salvar a cara de jogos medíocres, não é?

Digo isso porque, em tese, Corinthians e Santos têm tudo para fazer grande essa final desdobrada em duas partidas. Aparentemente, têm trunfos: boas equipes, entre as melhores do País; alguns craques, como Pato e Neymar, e torcidas que trazem a memória de antigas rivalidades. Claro que nada disso é garantia prévia de dois bons espetáculos. E a palavra é essa: “espetáculo”. Seria preciso voltarmos a ver o futebol como competição, algo que ele sem dúvida é, antes de qualquer consideração, mas, igualmente importante, como disputa que pode produzir beleza.

Esse é um dos subprodutos mais nobres do esporte em geral e do futebol em particular. Colocamos 22 marmanjos para disputar quem consegue colocar a bola mais vezes na meta adversária e, dessa atividade, surpreendentemente, vemos nascer lances de insuspeitada beleza. Daí alguns chamarem de “futebol arte” a modalidade que se preocupa não apenas em ganhar, mas em produzir fatos estéticos em campo. Movimentos destros e harmoniosos, ou jogadas surpreendentes, ou ainda a inteligência de um jogo tático bem aplicado, ou aquela bola que renuncia à linha reta e descreve uma curva em aparência impossível. Tudo isso produz a beleza do jogo. E a torcida, que deseja ver seu time vencer, também é sensível a ela. A torcida deseja o prato feito da vitória, mas não dispensa o caviar do jogo bem jogado.

Teremos isso nos dois jogos que finalizam o Paulistão de 2013? Só aquelas entidades que jamais foram vistas e, segundo dizem, regem os estádios poderiam responder. Mas os deuses do futebol teimam em permanecer calados. Ou só falam depois que a bola parou, o que dá no mesmo.

Há, no entanto, jogadores que se preocupam com esse aspecto. Quando Neymar inventa uma firula, não está desprezando o adversário, mas criando, ou tentando criar, um momento de magia para seu público. É como o violonista que tira da cartola um acorde inesperado ou embeleza a melodia com um toque sutil e original. Quem já ouviu o grande Baden Powell sabe do que estou falando. Da mesma forma, quando Pato toca na bola, sentimos que algo diferente pode acontecer. Ainda que ele não esteja na melhor forma (quando estará?), é raro que protagonize uma jogada banal. Desse modo, são os craques, esses jogadores diferenciados, quem têm a responsabilidade de fazer o espetáculo acontecer.

Os melhores sabem disso. Numa entrevista, Pelé me disse que rezava para o jogo não terminar 0 a 0. Que viessem muitos gols, beleza e emoção para a torcida que se havia deslocado ao estádio. É o que chamo de possuir o senso do espetáculo, o sentido da sua responsabilidade de administrar a cota de beleza de que o torcedor precisa.

Seria bom se os “professores” também se preocupassem um pouco com isso. Mas nem Tite, nem Muricy parecem devotos do futebol arte. Aliás, essa expressão pode parecer até um tanto impudica para eles. Em tempos idos, Muricy chegou a recomendar que quem quisesse ver espetáculo fosse ao teatro. Como depois foi trabalhar num clube por demais identificado com o conceito de futebol arte, moderou um pouco o discurso. Mas duvido que, intimamente, tenha mudado seus conceitos. Tite, que é, possivelmente, o melhor treinador do País, também não parece um esteta. Se puder ganhar feio, de 1 a 0, se dará por satisfeito. Só espero que não atrapalhem muito o espetáculo que seus times podem nos dar de presente nesta final.

* Publicado no Esportes do Estadão

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