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Que tal o Mourinho? *

Luiz Zanin Oricchio

27 de novembro de 2012 | 14h20

Amigos, ando intrigado com o lobby por Pep Guardiola para substituir Mano Menezes. Claro, o simpático ex-técnico do Barcelona tem cartaz para dirigir o time que bem entender. No dolce far niente do seu ano sabático, Guardiola só está esperando pelos melhores convites que se apresentem. Talvez não contasse com a possibilidade de treinar uma seleção que, apesar de nascida no lado errado do Atlântico, ostenta cinco estrelas na camisa.

Guardiola detém a simpatia quase unânime dos assim chamados formadores de opinião. Treinou (mas não criou) o time modelo do moderno futebol bem jogado. O Barça foi uma espécie de salvação da lavoura para quem gosta do futebol bonito. Consegue superar a chatíssima (errônea e reducionista) dicotomia entre futebol arte x futebol de resultado. Jogando bem e bonito, vence. É eficaz com arte, em seu estilo bem particular, baseado na posse de bola e na troca de passes. Guardiola associou-se a esse modo de jogar. Chegou ao ápice, junto com o time. E, inteligente, sabe que a hora do ápice é a melhor para sair.

Além do mais, recitou uma senha interessante ao dizer que, criança, admirava o futebol brasileiro, aquele que aqui praticávamos, encantava e vencia. O mundo rodou e, com ele, a bola. Entendeu-se que a força e organização, e não mais o talento individual eram as chaves para vencer e se impor. Por sorte, chegou o Barcelona, com um tipo de jogo envolvente, de grande aplicação tática, mas que não ofusca o brilho individual do craque. E como poderia fazê-lo, já que conta com o maior deles na atualidade?

Além do mais, argumenta-se, Guardiola atua no mundo globalizado da bola, essa espécie de geleia geral que não conhece fronteiras, idiomas ou sotaques. Viria treinar um grupo de jogadores de talento, como o fez na Catalunha, e sem qualquer problema.

Entendo todos os argumentos. Mas, de minha parte, acho que seria apenas uma medida bombástica, destinada mais à mídia que aos resultados. Sem duvidar das virtudes de Dom Pep, devemos lembrar que no Barcelona ele encontrou uma série de circunstâncias favoráveis ao trabalho. Categorias de base que jogam desde os cueiros segundo determinada filosofia, nomes excepcionais como Xavi e Iniesta e, em especial, Messi vivendo grande fase. Quem garante que repetirá o êxito na seleção?

Ademais, como lembrou Tite, Guardiola apresenta um único trabalho, embora vistoso, no currículo. Precisássemos de um técnico estrangeiro, por que não buscar o mais rodado José Mourinho, por exemplo? Já estamos acostumados a “professores” de ego descomunal e palavras malcriadas. Ele não causaria qualquer estranheza entre nós. E, além do mais, daria entrevistas em português, o que já seria uma grande vantagem.

De minha parte, ao invés de fogos de artifício prefiro pedir o mais difícil: reformas de base no futebol brasileiro, como um calendário racional, uma política de manutenção de craques, o estímulo ao futebol bem jogado que sempre foi a nossa melhor característica. A seleção seria a expressão maior do futebol de excelência jogado em nosso país. Não dá para ter um futebol de baixo nível para uso doméstico e uma seleção magnífica em Copa do Mundo.

* Coluna Boleiros, publicada no Caderno de Esportes do Estadão

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