‘Que Horas Ela Volta?’ é indicado para concorrer a uma das vagas do Oscar
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‘Que Horas Ela Volta?’ é indicado para concorrer a uma das vagas do Oscar

Filme de Anna Muylaert foi indicado pelo Ministério da Cultura para disputar pelo Brasil uma das vagas para concorrer ao Oscar 2016 na categoria de melhor filme estrangeiro

Luiz Zanin Oricchio

10 de setembro de 2015 | 12h12

horas

Como se previa, Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert, é o filme indicado pelo Brasil para concorrer a uma vaga na disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro.

O longa, que tem Regina Casé no elenco e fala das relações entre patrões e empregadas domésticas, tem sido o lançamento mais comentado da atual safra do cinema brasileiro. Tem carreira internacional e já foi premiado nos festivais de Berlim e Sundance. Estreou em 22 países. Tem recebido críticas positivas na imprensa estrangeira, em veículos como The New York Times, The Guardien e Le Figaro.

O júri que o escolheu foi integrado pelo coordenador-geral de Articulação, Formulação e Difusão da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura (SAv/MinC), Lula Oliveira, representando o ministro da Cultura, Juca Ferreira; o cenógrafo Marcos Flaksman; o jornalista Rodrigo Fonseca; o diretor Daniel Ribeiro; o chefe da Assessoria Internacional da Agência Nacional de Cinema (Ancine), Eduardo Valente; o chefe do Departamento Cultural do Ministério das Relações Exteriores, George Torquato Firmeza; e a sócia da Academia Brasileira de Cinema Silvia Rabello.

Concorreram também à vaga A história da eternidade (Camilo Cavalcante), Alguém Qualquer (Tristan Aronovich), Campo de jogo (Eryc Rocha), Casa Grande (Fellipe Barbosa), Entrando Numa Roubada (André Moraes), Estrada 47 (Vicente Ferraz), Estranhos (Paulo Alcântara).

Os filmes brasileiros selecionados para concorrer à indicação nas últimas seis edições do Oscar foram: Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro (2015); O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho (2014); O Palhaço, de Selton Mello (2013); Tropa de Elite 2: o Inimigo agora é Outro, de José Padilha (2012); Lula, o filho do Brasil, de Fábio Barreto (2011); e Salve Geral, de Sérgio Rezende (2010). Nenhum deles chegou lá. O último filme brasileiro a disputar o Oscar de melhor filme estrangeiro foi Central do Brasil, de Walter Salles, na edição de 1999.

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Análise: Filmes que ajudam a entender as estruturas profundas do País.

 

Talvez as pessoas estejam preocupadas demais com o rebaixamento da nota do Brasil pela agência Standard & Poor’s (quanta ironia nesse nome…) e não se deem conta de que existe um problema social em curso no País. É dele que fala Que Horas Ela Volta?, filme de Anna Muylaert escolhido para disputar uma das vagas no Oscar 2016.

Como se sabe, ele fala das delicadas (e às vezes brutais) relações entre patrões e empregadas domésticas, relações essas fruto da nossa herança de Casa Grande & Senzala, para evocar a obra-prima de Gilberto Freyre.

Vão aí alguns spoilers. Val (Regina Casé) é empregada doméstica e dorme na casa dos patrões. Ajudou a criar o filho da casa, um garoto agora adolescente. Ela deixou o Recife e veio para São Paulo. Deixou também para trás uma filha, Jéssica (Camila Márdila) que agora precisa vir morar com a mãe para prestar vestibular em Arquitetura. Em tese, ela deve se instalar no quartinho de Val, mas sua presença na casa do Morumbi será profundamente desestabilizadora.

E por quê? Porque talvez Jéssica simbolize um novo Brasil que vem surgindo, apesar de tudo. Não herdou a cabeça baixa da mãe. Pelo contrário, chega a ser petulante. Dona de personalidade firma, não se considera inferior aos patrões (na verdade, patrões da mãe) apenas pelo fato de não ter dinheiro e ter vindo de uma região pobre.

Há toda sorte de estranheza no comportamento de Jéssica, em especial quando visto pelo ponto de vista dos donos da casa. Incluindo a camaradagem que faz com o filho jovem, mais ou menos de sua idade. E também a tensão erótica que provoca no dono (Lorenço Mutarelli), que nada tem do tradicional uso das escravas como objetos sexuais e, depois, por herança erótico-cultural, das empregadas.

O filme é feito de sutilezas e o fato de ser Jéssica a professora de cidadania da própria mãe não é a menor delas.

De qualquer forma, o filme trabalha com a questão da tensão entre classes sociais, forte em particular num país de abismos econômicos como o Brasil. Sabemos como essa disparidade é atenuada no caso das domésticas que são “quase de casa”, como dizem as patroas. O “quase”, aqui, tem particular importância. Às vezes a expressão é “você é praticamente da família”, o que vem a dar na mesma. Se é de casa, ou se é da família, ninguém precisa se preocupar muito com direitos trabalhistas, uma vez que tudo se dá no âmbito doméstico. Já o “quase” e o “praticamente” garantem que, apesar dessa proximidade, as distâncias devem ser mantidas e certas fronteiras não podem ser ultrapassadas. A presença de Jéssica serve para embaralhar essas hierarquias estabelecidas em séculos de dominação. Daí o brilho do filme, em sua aparência simples, porém de grande eficácia.

É curioso como essas relações de classes e entre patrões e empregados têm aparecido com frequência no cinema brasileiro contemporâneo. E, por sorte, no que esse cinema tem apresentado de melhor.

Está presente, por exemplo, em O Som ao Redor, de Kléber Mendonça Filho, que assume abertamente a influência das ideias de Gilberto Freyre sobre sua obra. Freyre é o teórico dessa zona cinzenta, feita de exploração, familiaridade e erotismo entre a casa e a senzala. É nela que movem os empregados e os patrões do quarteirão no Recife escolhido como cenário para o longa. Há nele o senhor de engenho, seu Francisco (W.J. Solha), que reciclou seu capital em especulação imobiliária na cidade. Há seus parentes e descendentes. E os empregados que gravitam naquele ambiente, incluindo os seguranças (um deles é Irandhir Santos). Toda essa estratificação em classes, movendo-se em zonas cinzentas e em posições instáveis fornece um retrato não apenas de momento do Brasil, mas de sua própria formação histórica.

Casa Grande, de Fillipe Gamarano Barbosa, é outro desses exemplares do cinema de prospecção e diagnóstico das estruturas da sociedade brasileira. Aqui temos um perfil de decadência de um investidor em Bolsa de Valores, que já não consegue mais sustentar a bela casa construída e nem o modo de vida da família. Jean (Thales Cavalcanti) é o adolescente que terá de abdicar do carro com chofer e ir à escola de ônibus. O que lhe permitirá conhecer outro lado da realidade do Rio de Janeiro, para ele então oculto. Mas será dos empregados da casa, em particular a arrumadeira vivida por Clarissa Pinheiro, que Jean receberá suas mais valiosas lições.

Que Horas Ela Volta?, O Som ao Redor e Casa Grande são filmes que ajudam a recuperar a percepção de um tecido social brasileiro bastante heterogêneo e muito contraditório. Diferente da versão harmônica e apaziguada vendida pela ideologia dominante. O cinema, além de nos proporcionar prazer e divertimento, também serve de lupa e bisturi para expor esses dados de realidade, cuidadosamente ocultados para que tenhamos a impressão de que tudo vai bem no melhor dos mundos possíveis.