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Que futebol é este? *

Luiz Zanin Oricchio

06 de agosto de 2013 | 09h45

Amigos, um Santos x Corinthians nunca é banal. Sempre vale mais que os três pontos em jogo. Este de amanhã, então, reveste-se de especial dramaticidade. Principalmente para o Santos. O Corinthians, que patinava no Campeonato Brasileiro, já está em sétimo lugar, com as duas vitórias contra o Grêmio e Criciúma. O Santos ocupa a zona intermediária, com 12 pontos, mas dois jogos a menos.

Não se trata de classificação, mas de uma questão moral. Se perder na Vila, em seguida ao massacre sofrido em Barcelona, ninguém sabe o que pode acontecer. Será a crise total, anunciada com a saída de Neymar e sacramentada pelos 8 a 0, resultado que, queiram ou não, ficará marcado na história como uma das páginas mais aviltantes de um clube de tantas glórias. Do clube de Pelé, ora bolas. Enfim, não tenho intenção de ficar aqui cornetando ninguém. Mesmo porque a conta será apresentada adiante. Esse jogo foi um haraquiri político.

O problema é a crise que se insinua. Que poderá explodir de vez em caso de derrota para o rival, dentro de casa (estive em Santos, falei com várias pessoas: nunca vi a torcida tão revoltada). Ou poderá ser amortecida, ou quem sabe adiada, em caso de vitória. Pensando racionalmente, acho o Corinthians amplamente favorito no jogo de amanhã. Por vários motivos, e o principal deles é que tem um time maduro e melhor, muito mais sólido e com opções de elenco variadas. Além disso, há o desequilíbrio psicológico causado pela catástrofe de Barcelona. Tite seria muito tolo se não se aproveitasse dos nervos abalados do adversário. E de bobo ele não tem nada.

Por outro lado, se o Brasil fosse um país futebolisticamente sério, essa hecatombe santista deveria ser motivo de reflexão, não apenas na Vila Belmiro, mas em todo o País. Por uma razão muito simples: não foi um time de Quarta Divisão que apanhou no Camp Nou. Foi um time que disputa a Primeira Divisão de profissionais, na qual ocupa posição intermediária. Nem está na zona de rebaixamento, embora, a prosseguir desta forma, já figure como um dos potenciais rebaixáveis. De qualquer forma, o jogo em Barcelona parecia ser entre um time profissional de ponta e outro amador, um time de várzea que se reúne para bater uma bola antes do churrasco e da cerveja.

A pergunta é a seguinte: o vexame foi só do Santos e só diz respeito aos santistas, ou serve de termômetro do atual futebol brasileiro? Não falo da seleção. Ela reúne os melhores jogadores disponíveis e estes estão quase todos na Europa. O que insisto é no futebol praticado aqui dentro, por nossos times. Que futebol é esse em que um time medianamente classificado na tabela da sua principal divisão perde de 8 a 0 para outro time, por melhor que este seja? Repito, amigos, sem medo da redundância: isso não é placar de futebol profissional. É placar de várzea, de futebol de praia, de jogo de meninos enfrentando adultos. Acho alarmante.

Claro que o atual Santos não se encontra entre os melhores times do futebol brasileiro. Está distante de Corinthians, Cruzeiro, Fluminense, Botafogo, Atlético-MG e outros. É mediano, inexperiente numa ponta e envelhecido na outra. Mas há dois anos esse mesmo clube se sagrava campeão da Libertadores da América. Como chegou agora a esse ponto, em tão pouco tempo? Por que essa gangorra, essa montanha-russa permanente? Acho que é uma pergunta de interesse geral e não apenas um problema do Santos.

Na minha opinião, o vexame do Santos expressa, de forma dramática, a fraqueza generalizada do futebol brasileiro. É sabido por todos que a globalização da bola fez muito mal ao futebol dos países mais pobres, Brasil e os da América do Sul, em geral. Criou-se um fosso entre os times europeus e os sul-americanos. De vez em quando, em partida única, dá para atravessar essa infinita distância, como fizeram Corinthians diante do Chelsea, São Paulo contra o Liverpool e Internacional com o Barcelona. Jogando fechadinho, tentando beliscar um gol no contra-ataque, dá para ter uma chance. Mas são exceções. Num imaginário campeonato por pontos corridos entre os dois continentes, só daria Europa. Triste, não?

* Coluna publicada nas páginas de Esportes do Estadão *

 

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