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Quatro Meses, Três Semanas, Dois Dias

Luiz Zanin Oricchio

26 Janeiro 2008 | 12h14

O que talvez mais nos cause impressão em 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, de Cristian Mungiu seja uma série de inversões de expectativas. Numa história que seria ‘sobre’ o aborto, não é a moça que pretende se livrar do feto indesejado que ocupa a posição central e sim a sua amiga e cúmplice. Mais: em obras desse gênero, a linguagem cinematográfica costuma incorporar tanto a sordidez quanto a culpa, e também um certo melodrama, como que para compensar a ousadia de enfrentar um tema ainda considerado tabu. Uma espécie de ‘preço a pagar’.

É um pouco assim em Assunto de Mulheres, de Claude Chabrol e também no recente Vera Drake, de Mike Leigh. Já em 4 Meses…, a opção, deliberada, consciente e aplicada com todo o rigor, é oposta. O que vale, aqui, é uma espécie de desdramatização do tema, tratado sem qualquer implicação ética, ou moralista. O problema será, na repressiva Romênia de Ceaucescu, driblar a severidade das leis, encontrar um aborteiro (confiável ou não) e livrar-se de um estorvo.

Então, o que se tem são duas moças, Gabita, que está grávida, e sua amiga Otilia (Anamaria Marinca), vivendo uma espécie de clandestina corrida de obstáculos para ajudar a outra. Sim, porque quem mais se empenha nessa luta é Otilia, já que Gabita joga o papel oposto da amiga. Se Otilia é de uma atividade e determinação exemplares, Gabita, justamente a fonte dos problemas, padece de uma passividade insuperável. Em palavras simples: Gabita joga nas costas de Otilia toda a responsabilidade pela condução do aborto. Será a amiga quem terá de alugar um quarto de hotel numa sociedade supercontrolada. Será ela quem terá de formalizar o ‘contrato’ com o fazedor de anjos, inclusive sendo obrigada a cumprir uma cláusula não prevista. E será ela a desfazer-se dos restos da aventura, caminhando numa noite de terror por uma cidade escura e cheia de ameaças.

No fundo, 4 Meses… é a saga dessa moça, acaso uma representante do tipo de pessoa que por fim conseguiu livrar a Romênia de um regime detestável. Otilia faz o que deve ser feito. Paga um preço alto e vai em frente. Luta contra a indiferença de quem, no fundo, é responsável maior por todos os problemas, sua amiga Gabita que, com vozinha de criança, se revela de um egoísmo atroz. Quem já não conheceu uma pessoa como esta que, com gestos suaves e ar frágil, parece disposta a explorar o próximo até o osso?

Assim é Gabita. Frágil num meio cafajeste, duro, em que porteiros de hotel comportam-se com a truculência de agentes de uma ditadura. Em que um reles aborteiro se relaciona com os outros de uma maneira doente, confiante de que não pode ser delatado por pessoas que, no fundo, são suas cúmplices. Doente, enfim, é o meio social em que Otilia se move com tanta dificuldade. Mungiu, o diretor, atrai todas as atenções para a sua pequena heroína. Ao mesmo tempo, não lhe dá trégua. Por isso o filme é seco como três desertos, sem uma musiquinha para desafogo ou catarse. Move-se numa lógica oposta ao do roteiro hollywoodiano, no qual todo efeito tem causa perceptível. Aqui, o acaso vale tanto como o planejamento. Como na vida.

(Caderno 2, 25/1/08)