Quarentena (8). Do Sentimento de não estar de todo
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Quarentena (8). Do Sentimento de não estar de todo

Luiz Zanin Oricchio

04 de abril de 2020 | 18h15

Um amigo escreveu que não está em pânico mas às vezes não acredita que tudo isso esteja acontecendo com ele. 

Compreendo. Eu também tenho às vezes essa impressão de sonho ruim que vai se dissipar assim que acordar. Mas não acordamos. Nos sentimos presos ao pesadelo. 

Num primeiro nível, acredito, pode ser uma espécie de negação da realidade. Tive o mesmo sentimento quando elegeram o atual presidente. Despertava assustado de manhã e a sensação de irrealidade me invadia quando me lembrava do fato – talvez a maior derrota do povo brasileiro em toda sua história. 

Aos poucos caía em mim (“cair em si” é uma bela expressão), mas, mesmo assim, permanecia aquela impressão de que tudo aquilo se passava de modo vago, num país de ficção, exótico, ou numa página de má literatura. 

Agora soma-se o vírus. A nossa Peste, pós- Camus. 

Ao ver na internet a frase do meu amigo, me lembrei de um texto de Julio Cortázar, Do Sentimento de Não Estar de Todo, lido muitos anos atrás. Não foi difícil encontrá-lo, embora minha biblioteca esteja esquizofrenicamente dividida entre São Paulo e Santos. Por sorte, estava aqui, no litoral, no livro de ensaios A Volta ao Dia em Oitenta Mundos, uma edição preciosa da Civilização Brasileira, dois volumes pequenos, elegantes e manejáveis.

Dei uma relida no ensaio, traduzido como “Do Sentimento de não Estar Totalmente” e que tem como epígrafe a legenda de um desenho de Antonin Artaud: “jamais réel et toujours vrai”. Nunca real e sempre verdadeiro. 

 

Cortázar fala dele mesmo, da criança que sobrevive no adulto  e lhe permite, digamos, usufruir de um estado de estranheza que “…se manifesta no sentimento de não estar totalmente em qualquer das estruturas, das teias que a vida constrói e onde somos ao mesmo tempo aranha e mosca”.  

Mais adiante, esse parágrafo magnífico, que já citei várias vezes em outros textos sobre Cortázar (escritor que muito me influenciou e continua sempre presente em mim): 

Chama de essa condição de “constante lúdica” e assim define seus romances “…esse jogo na beira da janela, esse fósforo ao lado da garrafa de gasolina, esse revólver carregado na mesa de cabeceira”.

Cortázar diz que escreve por insuficiência, por “descolocação”. Escreve de um “interstício”, embora eu prefira o termo “fresta”, encontrado, suponho, em outra tradução. É uma abertura, um espaço de estranhamento, que é também o da poesia e, claro, o da filosofia. A filosofia nasce do espanto em relação ao mundo, sabemos. 

Ora, o que temos e sentimos no presente são as coisas mais óbvias. Receio diante do desconhecido, percepção das nossas próprias fragilidades e as limitações das instituições em que confiamos (a ciência, a medicina). Medos concretos do que pode vir, como a doença, a perda do emprego, a diminuição da renda, o aumento no número de mortos, caos de abastecimento, desordem social, etc. 

Mas também pesa a destruição da nossa rotina, o fim da alternância entre dias úteis e finais de semana, a convivência exclusiva com algumas pessoas e, em alguns casos, a solidão física absoluta. 

Tudo isso, com a queda de pilares imaginários que costumam nos sustentar, contribui para essa sensação de estranhamento, de “não estar de todo”, como escreve Cortázar. 

O outro lado da coisa é que essa “fresta”, por onde a estranheza invade a nossa vida, também pode ser um espaço de liberdade. Um espaço onde podemos escrever, criar, estudar, pensar “fora da caixinha”, como sempre se diz e nunca se faz. 

Espaço de liberdade que não nos concedemos na “vida normal”, que agora já parece apenas uma lembrança distante. 

Uma espécie de sonho que um dia sonhamos. 

 

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Obs. Para quem se interessa por filosofia (e cinema), recomendo vivamente a série A Herança da Coruja, de Chris Marker, parte do festival É Tudo Verdade online. 

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