As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Quarentena (7). O vírus e a nossa ferida narcísica

Luiz Zanin Oricchio

02 de abril de 2020 | 11h14

A pandemia expande o debate para além das questões médicas, de saúde pública e científica.

Há repercussões de ordem política, psicossocial, econômicas, subjetivas e artísticas. Quer dizer, a pandemia concerne a experiência humana em sua totalidade. A avalanche de informações que dela decorre é testemunha do seu caráter holístico.

Uma das mais interessantes, creio, é a repercussão na economia, domínio em que as teses neoliberais se encontravam em estado de hegemonia até um mês atrás. Não mais. Até mesmo economistas de confissão neoliberal (ou liberal light) convêm que a mão invisível do mercado mostra-se totalmente incapaz de enfrentar uma catástrofe como esta. O Estado, que para eles deveria ser reduzido ao mínimo, ressurge como agente indispensável na gerência da crise. E, supõe-se, mais adiante, quando for hora de contabilizar os mortos e os prejuízos, será fundamental na tarefa da reconstrução.

A administração da pandemia e o trabalho de reconstrução, a saída da crise, serão keynesianos, com intervenção direta do Estado. Ou não haverá saída, porque o mercado por si só não será capaz de fazê-lo. O mercado cuida dele, não dos outros.

Cai, portanto, um dogma. Fica uma dúvida. Terminada a tragédia, recuperado o ânimo e com a vida tocada de maneira mais ou menos normal, retornaremos ao ponto de partida ou teremos aprendido alguma coisa ao longo do processo? Fica por ver. Minha falta de fé no capitalismo não me leva a conclusões otimistas. Veremos. Talvez algo mude na percepção das pessoas e, mudando as pessoas, obrigue a política e a economia a se dobrarem em direção diferente. Tudo em aberto.

Outra coisa que pensei a respeito dessa pandemia é sobre seu caráter de ferida narcísica. De repente descobrimos que nossa onipotência não passa de auto-engano. Um engodo. Uma ficção sem base na realidade.

Descobrimos, de uma hora para outra, que um mundo tão orgulhoso de suas conquistas científicas e tecnológicas, com suas viagens espaciais e computadores de bolso (smartphones) não é capaz de lidar com um vírus.

De certa forma, já sabíamos disso, mas era a mesma coisa que não saber. Afinal, a ciência farmacêutica, capaz de tantas proezas, se mostra incapaz até hoje de produzir uma vacina contra um reles resfriado de origem viral. Agora é a mesma coisa. Só que esse vírus novo se espalha com incrível velocidade. E mata. Nos deixa frágeis e à sua mercê.

Notamos, em seguida, toda a falta de estrutura para enfrentar a doença. Recomenda-se o uso de máscaras. Não existem máscaras para comprar. Álcool em gel. Não há. Outro dia consegui comprar um frasco, a preço de perfume francês. Pede-se que os idosos se vacinem contra a gripe convencional e não saiam de casa. Os idosos saem de casa em busca da vacina e não a encontram nos postos de saúde. Arriscam-se à toa. Não há leitos, não há respiradores em número suficiente e nem vagas nas UTI. Hoje vi no jornal a história de um jovem com coronavírus que peregrinou cinco dias atrás de um hospital e morreu sem ser atendido.

Enfim, o mundo todo está em xeque e lidando muito mal com a pandemia. Mais ainda no Brasil, onde um presidente irresponsável e imaturo tenta puxar o tapete do seu próprio ministro da saúde e espalha fake news alarmistas sobre uma crise de abastecimento de alimentos. Um dia essa pessoa deverá ser processada pelos inúmeros crimes que está cometendo no momento mais grave da nação.

Nação, vale lembrar, de estrutura extremamente frágil em vista de sua obscena desigualdade social. Quem tem casas confortáveis e uma certa gordura financeira se isola e tenta ficar longe do vírus. E quem mora em palafitas, em favelas, cômodos apertados que abrigam famílias inteiras? E quem mora na rua? Não terão direito à vida, tanto como nós?

Enfim, com essas fragilidades todas expostas, os que sobreviverem deveriam aproveitar a experiência para uma revisão de valores. Arrogância e onipotência são atributos de ignorantes, de gente burra que não consegue enxergar suas próprias limitações. Voltarão ao “normal” após o susto? Passarão a questionar o consumismo desenfreado e o exibicionismo? Começarão a duvidar do dogma da competitividade e adotarão práticas mais solidárias? Não sei. Minha fé na humanidade não chega a ponto de antever mudanças radicais de mentalidade. Mas espero ser surpreendido.

Enquanto isso, com todas as limitações, é apenas com a ciência que podemos contar nessa hora de aflição. Quem for de religião, que reze. Mal não faz. Mas reze em casa, sem aglomerações em templos de pastores inescrupulosos. Eu confio apenas na ciência. Mas não espero que ela resolva tudo – e muito menos de uma hora para outra. Ignoramos mais do que sabemos.

Tudo o que sabemos sobre:

coronavírus