Quarentena (40): A tudo nos habituamos
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Quarentena (40): A tudo nos habituamos

Luiz Zanin Oricchio

29 de julho de 2020 | 11h35

  1. Iniciei essa série em 19 de março. Releio o que escrevi e me envergonho do otimismo. Imaginei que seria tudo coisa de semanas e no segundo semestre teríamos voltado ao normal. Apenas lamentava que seria grande o congestionamento de eventos no resto do ano. Pobre ingênuo. Jamais imaginei que, meses depois, nosso único contato com o mundo exterior e com outros seres humanos seria através das “lives”. Aliás, em março eu ainda ignorava essa palavra. Agora entrou de vez no nosso vocabulário. Quem não faz ou assiste a uma live ao menos uma vez por semana? 
  2. De início, não tínhamos a dimensão da coisa nem até onde poderia chegar. Hoje, 29/7, atualizo, são 2.483.191 casos confirmados no Brasil. Mortes: 88.539. Estacionamos num platô de mais de mil mortes ao dia. Somos o 2º maior em número de casos e mortes, superados apenas pelos Estados Unidos. Ao longo da pandemia, caíram dois ministros da saúde e assumiu um interino, um general especializado em logística. Está lá até hoje. Não há vacina nem remédio. O medicamento recomendado pelo governo é uma fraude, como o próprio governo, aliás. 
  3. Nesse contexto, o Brasil vive uma tragédia. Mas não se percebe nessa condição. Noto um embrutecimento crescente entre as pessoas. As mortes já não comovem, a não ser quando se trata de um parente, um conhecido ou alguém famoso. De resto, continuamos anestesiados, e de maneira progressiva. Carecemos de empatia, de compaixão pelos outros. E também de medo, a julgar pelo número de pessoas que desobedecem regras básicas como usar máscara e evitar aglomerações. As ruas de São Paulo estão lotadas e imagino que os transportes coletivos também. O inverno não apareceu e as praias também estão congestionadas. O “novo normal” (êta expressão idiota!) seria o da indiferença em relação aos outros e ao perigo? 
  4. O descaso pelo combate à pandemia e o boicote às medidas de isolamento podem ter desgastado o governo em determinado momento. No começo, ouvimos panelaços. As críticas tomaram tom mais duro e foram respondidas com a agressividade de sempre. O ápice desse climão nacional foi a reunião ministerial de 22 de abril, com as cenas mais constrangedoras da história da República, desde a votação do impeachment em 2016. As evidências de crimes de presidente & filhos são gritantes, mas passam sob silêncio cúmplice das autoridades constituídas. Num momento de acirramento pensei que o governo poderia cair. Ou, no desespero, tentar um autogolpe. Nem uma coisa nem outra. No Brasil, quase tudo se acomoda. As panelas silenciaram. Hoje vivemos em pasmaceira em meio ao morticínio e Bozo parece ter aprendido o valor do silêncio. A democracia vai sendo corroída pelas bordas, na surdina, e poucos se queixam. A popularidade do governo parou de cair e até melhorou. Em momento tão grave, a inépcia da oposição entrará para a História. 

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