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Quarentena (4): Entendendo a bolha bolsonarista

Luiz Zanin Oricchio

28 de março de 2020 | 09h35

  1. Está fazendo um dos outonos mais lindos dos últimos anos, o que é uma ironia, já que não podemos sair de casa. É minha estação favorita, nem quente nem fria. E possui uma luz especial, uma visibilidade única, permite ver ao longe uma cadeia de montanhas que passa escondida o resto do ano. Bom, pelo menos temos a janela e o terraço. E olhos para ver.  
  2. Deixei de lado as caminhadas e mesmo as voltas de bicicleta pela ciclovia. Não saio mais, a não ser para o indispensável. Ou seja, comprar comida. 
  3. Ontem fui à feira e ouvi a seguinte fala, dirigida à dona da banca das pamonhas. “Segunda-feira, vida normal. Essa quarentena já deu”, dizia o freguês, do alto da sua empáfia classe-média. Seria já efeito da famosa transmissão de Bolsonaro e da sua declarada guerra ao confinamento, o tal “O Brasil não pode parar”? Por certo.
  4.  Ontem também houve carreata na orla em favor do fim do isolamento social e reabertura do comércio. A chamada “carreata da morte”, que define bem a coisa. 
  5. Bem ou mal (mais mal do que bem) Bolsonaro vai cavando seu lugar na História. É, desde já, com pouco mais de um ano de mandato, o pior presidente eleito da história da República (teríamos de avaliar em que medida se nivela ou não aos generais-presidentes da ditadura). 
  6. Uma coisa é certa: é um presidente contra o seu país. Em guerra permanente a tudo e a todos que pareçam ameaçar seu clã e seu projeto de poder. Projeto de poder, não de país ou de governo, porque isso ele não tem.
  7. À medida que sente a reeleição e talvez o próprio mandato ameaçados, radicaliza o discurso e as atitudes. Ao se sentir mais fraco, ataca, de maneira cada vez mais irracional. E o resto que se dane. Um país pobre como o Brasil, sem infraestrutura sanitária para se defender de uma pandemia, precisaria de um líder que promovesse a união nacional. Ao contrário, tem um governante com olhos apenas para seu umbigo, que estimula cisões e atiça seus apoiadores, a porção pitbull da sociedade brasileira. Com as devidas desculpas aos cães, naturalmente. Foi apenas uma metáfora. 
  8. Outro dia, em seu Twitter, a secretária de cultura Regina Duarte divulgou um texto de apoio a essa fala irresponsável de Bolsonaro. Não é um texto da secretária. Ele circulou pela internet, em grupos de whatsapp. Eu mesmo o recebi.
  9. Como passaram a me mandar esse tipo de mensagem, aproveitei para fazer um estudo antropológico do grupo. Aguentei uns três dias, depois bloqueei porque o estômago é fraco e o fígado já não é o mesmo. Mas foi útil para entender o modus operandi da classe média bolsonarista. 
  10. Primeiro, eles são abastecidos por textos como este divulgado pela Regina Duarte. Alguém fornece esses conteúdos e eles viralizam na rede porque uns passam aos outros. Abastecem de opiniões e argumentos aqueles que não os têm e assim podem justificar o apoio que, contra todo o bom senso, ainda emprestam ao ex-capitão. 
  11. Depois, servem-se de toda uma rede “informações alternativas” disponível na rede para apoiar teses conspiratórias. Estão convencidos de que Globo, Estadão, Folha, TV Globo, Globonews são veículos de tendência comunista que se uniram para derrubar o presidente. Assim, é preciso garimpar na rede informações e opiniões “independentes”. 
  12. Num desses vídeos, por exemplo, um “analista” fala e dá provas de um complô chinês para ocupar o Brasil. Redes de TV e jornais seriam cúmplices porque teriam negócios com a China. E, portanto, se ninguém fizer nada, logo teremos por aqui uma ditadura marxista nos moldes chineses. O primeiro passo para implantação desse regime seria, claro, desacreditar e destruir o governo patriota de Bolsonaro. 
  13. Outro vídeo que circulou muito foi do ex-ministro Osmar Terra, médico. Ele garante que o isolamento social para enfrentar a pandemia é não apenas inócuo, mas prejudicial às pessoas. Não tem medo de ir contra a própria Organização Mundial de Saúde, pois a considera bem fraquinha. Dizem que estava de olho na pasta de Mandetta, mas Osmar nega. E Mandetta, pelo jeito, já se realinhou ao “pensamento” bolsonarista sobre a questão. O que as entidades de medicina brasileira têm a dizer sobre esses membros de sua categoria que colocam interesses políticos acima da saúde dos cidadãos? Onde foi parar o juramento de Hipócrates?
  14. Parte significativa do país vive nesse universo paralelo. Acreditam piamente no que diz Bolsonaro. Reforçam a opinião através das redes bolsonaristas e parecem impermeáveis a qualquer tipo de diálogo ou contraprova. É inútil tentar convencê-los das complexidades da vida real. 
  15. Nesse sentido, acho que a desarticulação mental, o pensamento binário, tosco e primitivo de Bolsonaro são fatores que o beneficiam, pelo menos junto a esse público. Seu discurso coloca essas pessoas ao abrigo das complexidades e das contradições da vida real, por certo dolorosas e, no limite, intoleráveis. É como uma espécie de droga, com efeitos colaterais pesados. 

 

 

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