Quarentena (39): Operação Pedro Pan e a paranoia anticomunista
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Quarentena (39): Operação Pedro Pan e a paranoia anticomunista

Luiz Zanin Oricchio

20 de julho de 2020 | 14h30

 

Meio atrasado, chego aqui para recomendar, com ênfase, o documentário Operação Pedro Pan, no Canal Curta! Atrasado, mas ainda a tempo para ver em dois horários: hoje (20/7), às 16h30, e amanhã (21/7), às 10h30. Vale a pena porque trata com muito equilíbrio de um dramático episódio da Guerra Fria. 

E olhe que em tempos polarizados (e não apenas no Brasil) tudo que não se poderia esperar seria equilíbrio acerca de tema tão difícil. O título alude a uma operação montada no início dos anos 1960 para retirar crianças e adolescentes cubanos do país e levá-los para os Estados Unidos, a salvo das “garras comunistas”. 

Cerca de 14 mil meninos e meninas deixaram Cuba e foram viver nos Estados Unidos, na maior parte das vezes longe dos seus pais, que não conseguiram acompanhá-los na fuga. 

O plano foi montado por forças anticastristas inspiradas pela CIA e contou com apoio logístico da igreja católica. Os pais cederam aos rumores que o governo de Fidel Castro iria retirar-lhes o pátrio poder e levar as crianças para campos de treinamento e adestramento ideológico. Desse modo, resolveram enviar as crianças para os Estados Unidos onde, mais tarde, se uniriam a elas. Ou elas voltariam, porque, àquela altura do campeonato, os anticastristas supunham que o novo governo não teria lá muito futuro e cairia em breve. 

O filme é centrado em depoimentos dos adultos que, no passado, deixaram seu país. São histórias comoventes, jamais apelativas. E, por milagre, despidas do ranço ideológico que seria de se esperar em tais circunstâncias. 

A esses depoimentos dos protagonistas da história, juntam-se outros, de especialistas cubanos e norte-americanos, que fornecem o devido contexto histórico e sociológico (e mesmo psicológico) para entender a coisa. 

Esse é outro ponto forte do documentário de Kenya Zanatta e Maurício Dias: contexto. Fica muito fácil – e muito raso – nos debruçarmos sobre o passado com os olhos do presente. É preciso entender o que acontecia na época. Em 1959, a Revolução Cubana havia derrubado o ditador Fulgêncio Batista, mas não era comunista, a princípio. Com o bloqueio norte-americano e a aproximação com a União Soviética, proclamou-se socialista. Instalou-se o medo, em especial nas camadas mais privilegiadas da sociedade cubana. A senha de alerta foi dada quando se ameaçou estatizar o ensino religioso. Nesse momento, a Igreja, pais apavorados e a irritação norte-americana com um regime comunista a 90 léguas de sua costa fizeram o resto. 

As crianças viraram joguete político na convulsão da Guerra Fria e sofreram as consequências. Se o medo dos pais pode ser compreendido, os interesses geopolíticos norte-americanos e ideológicos da Igreja passam ao largo da caridade cristã com crianças supostamente ameaçadas pelo regime. 

Algumas delas foram adotadas por famílias americanas. Outras não tiveram a mesma sorte e acabaram em orfanatos. Uma delas, Tomás Regalado, seria o futuro prefeito de Miami. Outras histórias não foram tão felizes. Houve casos de crianças que trocaram três ou quatro vezes de lar adotivo. Muitas ficaram anos sem ver os pais após essa experiência traumática. E, se uma crítica pode ser feita ao filme, é a de mostrar apenas casos bem-sucedidos. Muito mais plausível é pensar que, numa amostragem de 14 mil pessoas em tenra idade arrancadas de seu país e de suas famílias, haja muitas histórias mais tristes que as relatadas no filme.   

A paranoia anticomunista não é coisa de hoje, tem servido a muitos interesses escusos e produzido estragos há muito tempo. 

 

Horários 

20/07/2020 16:30:00 

21/07/2020 10:30:00 

 

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