Quarentena (37): ‘De Crápula a Herói’, o favorito de Gabo
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Quarentena (37): ‘De Crápula a Herói’, o favorito de Gabo

Luiz Zanin Oricchio

14 de julho de 2020 | 14h12

Em seu livro de entrevistas El Olor de la Guayaba (O cheiro da goiaba), Gabriel García Márquez diz que seu filme favorito é Il Generale della Rovere (1959), de Roberto Rossellini. Diz mais: gostaria de ter criado o personagem que dá o título original ao filme. No Brasil, optou-se por algo mais direto, com valor de spoiler: De Crápula a Herói

Quem é ele? Um tipo complexo e contraditório, maravilhosamente interpretado por Vittorio De Sica, talvez seu melhor papel no cinema. Estamos na Itália de 1943, subordinada aos nazistas. Lembremos que a Itália fazia parte do Eixo, mas eram os alemães que davam as cartas e ocupavam o país como invasores, impondo sua política de terror. Na Itália dominada existiam os dissidentes, os partigiani, que combatiam os nazistas. Uma guerra dentro da guerra. 

Nesse ambiente, o personagem de De Sica, que se fazia passar por um certo coronel Grimaldi, conforta e diz usar sua influência para interceder por presos do regime alemão que corriam o risco de serem fuzilados ou ir para campos de concentração. Para isso precisa dinheiro, naturalmente. Ou seja, é o pior tipo de ser humano, aquele que explora a dor dos outros. Um dia a casa cai e Grimaldi é preso pelos alemães. Um oficial lhe dá a alternativa de safar-se com vida (e dinheiro no bolso): fazer-se passar por um general da resistência (que havia sido morto em segredo pelos alemães) e encontrar entre os prisioneiros de cárcere um certo Fabrizio, chefe dos partisans.  

O filme é exposto no modo realista habitual de Rossellini, mas adiciona várias camadas de compreensão. Impossível não rir de algumas das falcatruas de Grimaldi ao aplicar seus golpes, com aquele charme decadente que De Sica tão bem sabia representar. Mas logo percebemos que o riso é amargo, pois a situação, apesar de engraçada, é bastante sórdida. E chegamos a nos sentir mal por termos achado graça. 

Por outro lado, é na identificação com a personalidade assumida por Grimaldi, agora como Della Rovere, que o personagem pode reencontrar a humanidade perdida e, por fim, se redimir. A redenção, mesmo dos canalhas, e sobretudo destes, é parte integrante do universo espiritual de Rossellini, um católico de esquerda. Não existe ser humano perdido, a todos é concedida a segunda chance que pode redimi-los de seus pecados. Mesmo de pecados terríveis, como é o caso do personagem de De Sica. A história é um pouco como a de A Hora e Vez de Augusto Matraga, filme de Roberto Santos e conto de Guimarães Rosa, lembrados há pouco pelo falecimento do ator Leonardo Villar, que encarnou o personagem no cinema. O tema é comum, a redenção pelo sacrifício.  

Se assistimos De Crápula a Herói com olhos céticos, podemos encontrar várias inconsistências na obra. Mas ela é maior que as objeções, mesmo justas. Assenta-se sobre um humanismo que, católico ou não, é imenso e inabalável. Algo perdido para a maioria de nós, já moralmente desidratados pelo pragmatismo frio e cínico do nosso tempo. Apenas os verdadeiros cristãos e os revolucionários mantêm a chama acesa, ainda que bruxuleante.  

Il Generale della Rovere é maravilhoso. Mas, no meu entender, a obra-prima de Rossellini ainda é Viagem à Itália (Viaggio in Italia), um dos maiores filmes da história do cinema, com Ingrid Bergman no papel principal. 

De Crápula a Herói pode ser visto gratuitamente na plataforma do Sesc: (https://sesc.digital/colecao/42876/cinema-emcasacomsesc)

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