Quarentena (36): 40 anos sem Vinícius
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Quarentena (36): 40 anos sem Vinícius

Luiz Zanin Oricchio

09 de julho de 2020 | 18h49

ARQUIVO 24/04/73 – VINICIUS DE MORAES – FOTO: SOLANO JOSE/AE

Soube só agora à tarde (mas antes tarde do que nunca) que hoje faz quarenta anos que Vinícius de Moraes nos deixou. 

9 de julho de 1980! Como o próprio Vinícius diz no poema O Dia da Criação “Não há nada como o tempo para passar”. Como passa. Por coincidência, estava no Rio com um grupo de amigos quando ouvimos a notícia, talvez na TV de algum boteco onde fazíamos hora para uma peça de teatro que veríamos à noite. Com a má nova, suspendemos todos os compromissos e nos dirigimos ao antigo Bar Veloso, já rebatizado de Garota de Ipanema, onde fomos brindar ao nosso amigo Vinícius de Moraes. Pois era assim que o sentíamos. Não um artista distante e famoso, mas alguém que fazia há muitos anos parte de nossas vidas. Um amigo íntimo.  

Anos antes, no início da década de 1970, eu partilhara uma noite de violão & uísque com Vinícius. Foi na casa onde ele morava, em Itapuã, Salvador, com sua então mulher, a atriz baiana Gessy Gesse. Eu passava uma temporada de iluminação em Arembepe, e fomos, também um grupo de amigos, a Salvador visitar o tal bar do Vinícius, que ele mantinha em sua própria casa. Não havia outros clientes. O próprio Vinícius estava acomodado em uma mesa, com Gesse, e mais Aloysio de Oliveira e sua mulher. Aproximamo-nos com cuidado, para não darmos uma de fãs chatos, mas fomos muito bem recebidos e convidados a nos juntarmos a eles. Depois das primeiras libações, Vinícius deu ordem para que viessem uma garrafa nova, um balde de gelo e um violão. E assim seguiu a noitada, até o sol raiar, como se deve. Ano passado, com Maria do Rosário, revi a casa, agora transformada em simpático hotel, onde ficamos em nossa passagem por Salvador. 

 Memorabilia à parte, considero Vinícius um dos mais importantes artistas brasileiros contemporâneos. Acredito que, ao deixar de lado sua carreira poética “oficial” e de funcionário do Itamaraty, e dedicar-se à música popular brasileira, Vinícius levou-a a outro patamar. Suas parcerias com Tom Jobim, Carlos Lyra, Edu Lobo e Baden Powell estão entre o que de melhor a música produziu em seu período áureo. Vejam só: Garota de Ipanema, Chega de Saudade, Eu Sei que Vou te Amar, Berimbau, Deixa, Tempo Feliz, Primavera, Minha Namorada, Arrastão, Canção do Amanhecer, etc, etc, etc. 

Poderia ficar citando quase ao infinito. Prefiro apenas destacar, a título de preferência pessoal, seu trabalho com Baden Powell, em particular Os Afro-sambas, divisor de águas na música brasileira ao incorporar toque afro através da pena inspirada de Vinícius e do violão incendiário de Baden. Os Afro-sambas é um dos maiores discos da música brasileira. Anos depois foi regravado por Baden, já sem Vinícius. 

O curioso, na carreira de Vinícius de Moraes, está em sua primeira fase como poeta, com uma veia metafísica muito bonita e inspirada, mas que não deixaria adivinhar o futuro poeta lírico da bossa nova. Para nossa sorte, ao longo dos anos ele foi lapidando a refinada simplicidade que atingiria nas canções, já a partir das de Orfeu da Conceição (1956), início de sua maravilhosa parceria com Jobim. 

Essa parte, digamos assim, “literária” da música brasileira daquela época teve em Vinícius seu maior expoente. Versos despojados, certeiros e liricamente puros faziam par perfeito com a nova música que surgia nas harmonias de Tom Jobim, na divisão, voz e batida de violão de João Gilberto, no canto minimal de Nara Leão. Era a música ideal para um país formidável que estava nascendo. Inútil dizer que o Brasil real raramente fez por merecer a trilha sonora que lhe era destinada. Mesmo antes dessa nossa época atual de plena cacofonia. 

Mas, mesmo assim, ou até por isso, é bom lembrar de Vinícius. Quando a grosseria e boçalidade imperam, nada melhor que ouvir sua música e poesia. Até para lembrar que, por incrível que pareça, o Brasil foi um dia capaz de produzir tanto talento e tanta beleza. Um dia, não sei quando, voltaremos a isso. Salve, Vinícius!  

 

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