Quarentena (35): Leonardo Villar (1923-2020), a sutileza na brutalidade
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Quarentena (35): Leonardo Villar (1923-2020), a sutileza na brutalidade

Luiz Zanin Oricchio

03 de julho de 2020 | 19h24

Em ‘A Hora e a Vez de Augusto Matraga’, de Roberto Santos, baseado em Guimarães Rosa

Longa vida (96 anos), longa carreira, o grande Leonardo Villar nos deixou hoje. Muito teatro, muita TV, e, no cinema, uma obra compacta e sólida. Fazendo tipos brutos, Leo Villar brincava com a sutileza. 

Foi assim em seu primeiro papel no cinema, O Pagador de Promessas (1962), de Anselmo Duarte, como o sertanejo Zé do Burro, que insiste em entrar na igreja com uma cruz para cumprir o que prometera à santa. A história, de Dias Gomes, termina em tragédia porque é sempre trágica a relação entre o poder e o povo. Em especial quando este se revolta, como é o caso nesse embate político travestido em história de intolerância religiosa e filmado na Bahia. Em seu primeiro trabalho no cinema, Leo Villar levou o filme à Palma de Ouro em Cannes, a única vez, até agora, que o Brasil venceu o mais badalado festival de cinema do mundo. 

Em 1965, outro trabalho notável, agora como Augusto Matraga na versão para cinema dirigida por Roberto Santos da novela A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Guimarães Rosa. Nhô Augusto (Villar) é um homem truculento que, tocaiado por seus adversários, fica entre a vida e morte. Sobrevivendo, decide se regenerar e entrar no céu, custe o que custar. Mas, para remir seus pecados, precisará esperar sua hora e vez. Que chega quando a cidade é invadida pelo bando de seu Joãozinho Bem-Bem (Jofre Soares). 

Nesses dois papeis – os maiores de sua vida – Leo Villar compõe tipos sertanejos obstinados. E dispostos a tudo para atingir seus fins. Em Pagador de Promessas, a devoção religiosa que, em determinado momento, se torna mais intensa que o instinto de autopreservação. Em Matraga, andando no fio da navalha da transição rosiana entre o Bem e o Mal e sucumbindo, feliz, em meio a um ato de sacrifício e redenção.

Ambos papéis exigem do ator uma intensidade vulcânica, que, no entanto, precisa ser controlada para não extravasar. Na dialética entre força e contenção, ganha a arte. Mas é mais fácil falar que fazer. Esses filmes não seriam os mesmos sem Leonardo Villar. Impossível imaginá-los sem ele.  

Duas interpretações geniais – é bom que se use e frise esse adjetivo para não esquecê-las jamais. 

Salve, Léo Villar, e obrigado! 

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