Quarentena (33): ‘Apocalypse Now’, perturbador ainda hoje
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Quarentena (33): ‘Apocalypse Now’, perturbador ainda hoje

Belas Artes à la Carte propõe a versão definitiva da obra-prima de Francis Ford Coppola e mais dois documentários sobre os bastidores das filmagens

Luiz Zanin Oricchio

01 de julho de 2020 | 15h04

O Belas Artes à la Carte propõe a partir de hoje o combo Apocalypse Now. O pacote é formado pelo filme de Francis Ford Coppola (na versão Final Cut) e mais dois documentários sobre as tumultuadas filmagens: O Apocalipse de um Cineasta, de Eleanor Coppola, mulher do diretor, e Dutch Angle: Chass Gerretsen & Apocalypse Now, de Baris Azman. O aluguel do pacote custa R$ 19,90 e vale por 72 horas. Pode ser acessado aqui: (https://www.belasartesalacarte.com.br/products/pacote-apocalipse-now-final-cut-2-documentarios

É um belo mergulho nessa obra excessiva, complicada e polêmica, fruto da megalomania de um artista que não veio ao mundo para brincar. Coppola vai ao fundo das coisas. E, nesse filme conseguiu, a meu ver, imprimir o tom trágico da aventura imperialista no Vietnã. 

Na verdade, ao longo da travessia, Coppola foi mudando o andamento da obra. Havia o roteiro original de John Milius, mas Coppola foi reescrevendo tudo ao longo das filmagens. Era parte da loucura do projeto, com o capitão do navio angustiado em busca de um porto do qual ele não tinha as coordenadas. 

Certo, havia a guerra em si, que àquela altura, 1976, já havia sido perdida pelos Estados Unidos. E também existia o livro de Joseph Conrad, Coração das Trevas, que tinha muito a ver com aventuras colonialistas sob o signo da loucura, da ambição e da violência. No livro de Conrad, de 1902,é o narrador Marlow quem conta seu encontro com um mercador enlouquecido no fundo do então Congo Belga. 

Em Apocalipse é um certo coronel Kurtz, que enlouqueceu, estabeleceu uma seita e comanda uma milícia ensandecida. Precisa ser eliminado. Quem recebe a missão é o capitão Willard (Martin Sheen), veterano da guerra que volta ao Vietnã com essa tarefa, inglória e super secreta, pela qual ele não receberá os créditos, na hipótese de sobreviver a ela, claro. 

A abertura tem a força dos grandes filmes de Coppola. As palmeiras, castigadas pelo napalm, o voo dos helicópteros ao som de The End, do grupo The Doors, o rosto de Willard, em transparência, olhando para cima. As hélices dos helicópteros dialogam as do ventilador de teto do hotel. Depois, a entrada propriamente de Willard, bêbado e trancado em seu quarto, em Saigon. Willard tem uma crise de desespero e esmurra o espelho do armário. Cai ao lado da cama, ensanguentado. Diz o folclore do filme que não se trata propriamente de uma atuação genial, mas que Martin Sheen estava bêbado, entra de fato em parafuso, esmurra o espelho, corta a mão. Coppola, preocupado, quer levá-lo a um hospital. Sheen não aceita e exige que a cena do hotel seja terminada. E foi a que ficou. 

Bem, essa sequência dá o tom do filme, ou pelo menos, um dos seus tons – épico, paroxístico, explosivo. O outro é composto por nuances reflexivas, que se acentuam no final quando Brando entra em cena, no papel de Kurtz, e o filme se adensa como alegoria sobre a violência da guerra e a insanidade dos homens. 

Era o final que Coppola desejava? Não sabemos. No documentário de Eleanor, ele se queixa com frequência de que não encontra um final, que o filme não vai dar certo, vai ser uma porcaria, etc. No entanto, quando o vemos na tela, parece pensado e planejado em seus mínimos detalhes. Talvez seja assim a obra do homem: guarda aparência de caos enquanto está sendo produzida; feita, entra na dimensão da ordem. E, em alguns caso, da obra-prima, aquele tipo de trabalho que, temos a impressão, são tão perfeitos que não poderiam ter sido construídos de maneira diferente. 

Uma grande obra é lembrada por seu conjunto, mas também por algumas cenas em particular. Há a abertura, com Willard, já citada. Há também o encontro de Willard e da tripulação do barco em que sobem o rio com o alucinado coronel Kilgore (Robert Duvall), comandante da Cavalaria Aérea, uma frota de helicópteros militares. Kilgore quer encontrar uma praia com ondas boas para surfar e então ordena o ataque a um vilarejo dominado por vietcongues. O assalto aéreo se dá ao som de A Cavalgada das Valquírias, da ópera de Wagner, e talvez seja uma das sequências de maior impacto do filme. Assim como a meditação final de Kurtz/Brando, “o horror, o horror…”, tirada de Conrad.  

Em todo caso, a relação de Coppola com sua obra é tortuosa. Ele apresentou no Festival de Cannes uma versão “work in progress” com 144 minutos. Venceu a Palma de Ouro, dividindo-a com O Tambor, de Volker Schlondorff. Em 2011, lançou a versão Apocalypse Now Redux, com 197 minutos. A Final Cut parece ser a definitiva e tem 183 minutos. 

Essas duas últimas versões incluem toda uma longa sequência que havia sido excluída da primeira montagem. É quando, no percurso que o leva a Kurtz, Willard passa por uma fazenda de franceses, que se recusam a o fim do tempo colonial e se negam a partir. É uma sequência muito boa, não apenas por sua qualidade cinematográfica, mas por fazer o elo entre a colonização francesa e a norte-americana no Vietnã. 

Com todo seu impacto, Apocalypse Now não deixou de provocar controvérsias. Eleito por parte da crítica como um dos maiores filmes de guerra de todos os tempos, encontrou reservas de outra parte. Glauber Rocha escreveu um artigo descrevendo o filme como encomenda da CIA. Coppola vai descobrir o Mal num templo no Camboja quando deveria procurá-lo no lugar certo, no Pentágono, escreveu. Outro que não gostava era o grande escritor italiano Alberto Moravia (de O Desprezo). Ele achava tanto o livro de Conrad como o filme de Coppola “conservadores”. 

De fato, Apocalypse Now não apresenta uma posição explícita anti belicista ou anticolonial. Mas o que traz de maneira implícita é terrível, porque nunca talvez (com exceção do magistral Vá e Veja, de Elem Klimov) a guerra tenha sido mostrada em sua essência insana e devoradora. Esse espetáculo épico de morte e destruição, com seu final ambíguo e perturbador, nos deixa perplexos. Esse espanto é o pai da reflexão. 

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