Quarentena (31): ‘Alemanha Mãe Pálida’ e o tsunami do nazismo
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Quarentena (31): ‘Alemanha Mãe Pálida’ e o tsunami do nazismo

Luiz Zanin Oricchio

16 de junho de 2020 | 14h44

Como já disse, o confinamento abriu uma janela de oportunidade para vermos filmes antigos, sem problemas de consciência. Ou para revisitá-los, coisa que não podíamos fazer em tempos normais, diante da avalanche continuada de lançamentos. Enfim, isso para dizer que ontem vimos Alemanha Mãe Pálida, de Helma Sanders-Brahms, um filme de 1980. 

Acho que nunca o tinha assistido. Na época, não estava no Brasil e não me lembro de tê-lo visto na França. 

Enfim, é um filme que começa com um poema de Brecht e tira o título de um dos seus versos – Alemanha Mãe Pálida. O tom brechtiano aparece também na forma, em algumas passagens. Cito uma delas, um baile, em que a música ouvida não casa com o ritmo que os pares estão dançando. Esse “ruído” introduz uma dissonância, que provoca uma experiência de distanciamento no espectador. 

Alemanha Mãe Pálida remete ao tempo do nazismo e acompanha o casal Helene (Eva Mattes) e Hans (Ernst Jacobi). Ele não é filiado ao Partido Nazista e por isso é convocado na primeira hora para o exército alemão, que irá invadir a Polônia, dando início à 2ª Guerra Mundial. Helene, grávida, o espera. O espera sempre.  

A travessia da guerra é dura, ainda mais para uma jovem mãe com uma criança pequena e sem marido em casa. Aliás, Helene nem sabe se Hans está vivo ou morto. Muitas das sequências mais fortes são aquelas em que Helene sai com a filha nos braços em busca de um abrigo já que sua casa foi destruída num bombardeio. 

O pós-guerra não parece menos traumático, com a Alemanha arruinada, dividida e procurando se reconstruir. Os que escaparam com vida estão traumatizados e essas cicatrizes de guerra se exibem em seus corpos – e mentes. Helene é vítima de um transtorno facial que, ao que tudo indica, tem muito de psicossomático. 

O relato, portanto, cobre três fases, narradas em off. A pré-guerra, a guerra e o pós-guerra. Seu tom, densamente simbólico e, ao mesmo tempo, muito pessoal, se explicam pelo projeto. A diretora Helma Sanders-Brahms (1940-2014) relembra sua própria infância, dirigindo-se à sua filha. 

É uma maneira íntima, quer dizer, sem qualquer análise de conjuntura, de narrar uma experiência de horror. Quanto mais pensamos no filme, melhor ele fica. Conseguimos nos colocar na posição dessa pessoa que não nem nazista nem antinazista, que espera apenas sobreviver e reencontrar seu homem. Helene é apenas uma mulher comum, jogada de lá para cá pelo vendaval da História. Magnificamente interpretada, diga-se de passagem, por Eva Mattes, atriz frequente na filmografia de Fassbinder.

Vale para pensarmos, de forma mais complexa, na questão da responsabilidade individual de quem vive durante vendavais históricos.  

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