Quarentena (3). Aprenderemos alguma coisa?
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Quarentena (3). Aprenderemos alguma coisa?

Luiz Zanin Oricchio

24 de março de 2020 | 11h08


  1. Meu pai nasceu em 1917. Era um bebê quando a Gripe Espanhola se alastrou e matou gente em toda parte. Inclusive no Brás, bairro ítalo-paulistano onde ele veio ao mundo e morou. Mas os relatos passavam de pai para filho e ele nos contava daqueles  tempos de peste. E também da Revolução de 1924 (não confundir com a de 32), quando a cidade de São Paulo foi bombardeada e a família teve de se refugiar no interior do Estado. 
  2. Quais serão nossos relatos sobre essa pandemia, que vai se alastrando e chegando devagar, com aquele timing de inevitabilidade serena que é marca registrada das catástrofes?
  3. No dia-a-dia vamos reaprendendo o ofício de existir, que esquecemos em nosso cotidiano corrido. Agora que temos tempo, mas não sabemos quanto, nos preocupamos com atividades básicas, tais como prover a casa de mantimentos. Ou com a higiene, agora que estamos sem nossas auxiliares domésticas, para usar um eufemismo. Como limpar um piso? Lavar roupa, tirar o pó? Qual a diferença entre limpar um chão de banheiro e o da sala? Vamos retornando aos fundamentos, por assim dizer.
  4. Enquanto isso, esperamos que a medicina preserve nossas vidas, como é de sua vocação, mas nem sempre de sua competência.  
  5. Ontem começou a vacinação contra a gripe, digamos assim, convencional. Saímos, Rô e eu, de carro, em busca da tal vacina. Percorremos vários postos de saúde e em todos nos avisavam que as doses tinham acabado. Não se sabia quando viria novo lote. Se é que viria.Fiquei pensando: com essa infraestrutura de saúde pública, o que acontecerá quando a curva do coronavírus chegar lá em cima? Aliás, melhor nem pensar. 
  6. Em meio ao medo generalizado, vejo alguns gestos nobres, tais como os que se oferecem para fazer as compras dos mais velhos para que estes não se exponham nas ruas. 
  7. Porém também vejo sintomas de pânico mal disfarçado, tais como correntes de oração, banais mensagens de autoajuda, frases feitas, etc. 
  8. Em meio a tudo isso, a politização da pandemia, que me parece inevitável dada a disfuncionalidade do governo, incapaz de encarnar uma vontade nacional de enfrentamento à crise. Nunca a incompetência ficou tão exposta como agora. 
  9.   Ontem, maratonamos Freud, na Netflix. O jovem Sigmund, ainda na fase da hipnose, envolve-se numa trama escabrosa, com direito a uma sociedade secreta que deseja tomar o poder. Envolve-se também com uma sedutora Fleur Salomé, obviamente inspirada na musa da psicanálise Lou Andreas-Salomé. Vou terminar hoje e depois escrevo a respeito. 
  10. Antes de dormir, um filme já meio antigo de Kiyoshi Kurosawa, Sessão Espírita. História de uma sensitiva, que vê mortos, e de seu marido, envolvidos, ambos, e de maneira involuntária, no sequestro de uma criança. Que filme inquietante, meu Deus!
  11. Mas, devo dizer: depois de horas exposto ao visual hipercarregado de Freud, as imagens límpidas de Kurosawa são como um refresco. Limpam a retina. 
  12. Vamos aprender alguma coisa com esta crise ou, na hipótese de sobrevivermos, voltaremos a ser os idiotas de sempre?

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