Quarentena (28): A política do avestruz
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Quarentena (28): A política do avestruz

Luiz Zanin Oricchio

07 de junho de 2020 | 14h41

Só faltava essa. Não bastassem o descaso, falta de previdência, de planejamento, falta de vontade mesmo, somados à inacreditável irresponsabilidade e ausência de compaixão para com a dor alheia, agora as autoridades federais resolveram maquiar os números da Covid-19. 

Simples assim. Como as estatísticas são desagradáveis, e jogam no ridículo os defensores de que tudo não passa de uma “gripezinha” à-toa, curável com cloroquina, o negócio é manipular os números. 

Primeira providência foi passar o boletim diário das 19h para as 22h. Não adianta o ministério agora dizer que isso foi feito por “razões técnicas”. O próprio presidente já havia declarado que era para não dar manchete ao Jornal Nacional, da Globo, essa notória emissora comunista. 

Depois veio a decisão de fornecer apenas os números do dia, sem acumular. Como se as pessoas fossem tão estúpidas a ponto de não saber somar…

Mas Carlos Wizard, o novo nome “técnico” do Ministério da Saúde, colocou em suspeição os números até então levantados. De acordo com ele, os serviços de informação teriam descoberto que nem todas as mortes, ou casos registrados, seriam por infecção do novo coronavírus. Todas as mortes estariam sendo jogadas na conta do vírus para prejudicar esse governo tão bom. E/ou inflar as despesas dos Estados.  

Ok, todo mundo sabe que os números de fato precisavam ser reavaliados, mas para cima, porque havia evidências notáveis de subnotificação – o que é mais do provável, uma vez que o Brasil é o país atingido que menos realiza testes de detecção da doença. Ou seja, provavelmente há mais infectados e mortos pela Covid-19 do que dizem as estatísticas. Já o ministério sustenta o contrário. Que haveria supernotificação e os números estariam sendo inflados…por motivos políticos. Ora vejam. 

Ao ler essas notícias, uma máquina do tempo me transportou imediatamente para os anos 1970, durante a ditadura, que muitos idiotas pedem de volta. Naqueles anos houve uma epidemia de meningite no Brasil, mas os militares que ocupavam o poder achavam a notícia chata. Pouco condizente com a imagem de “Brasil Grande”, do “país que vai prá frente”, do “Brasil: ame-o ou deixe-o”. 

Desse modo, tomaram a decisão radical de acabar com a epidemia, proibindo que fosse divulgada pelos veículos de comunicação. A TV não dava, os jornais não publicavam, as rádios não falavam no assunto. As pessoas diziam umas às outras, em voz baixa, que havia uma doença terrível no país, uma peste, mas que não se podia falar dela sob risco de prisão. 

E assim o problema foi “resolvido”. 

Como ainda não chegamos ao estágio da censura, Bolsonaro tem de se valer de outros meios. Para acabar com o Corona, ou minimizar os números alarmantes de uma epidemia fora de controle, maquiam-se os números. 

É fazer como o avestruz. E convidar toda a população a imitar o bicho e enfiar a cabeça num buraco para não enxergar a realidade. 

Nota: Acabou de sair a notícia que Carlos Wizard não vai mais assumir o cargo no Ministério da Saúde. Desistiu e ainda pediu desculpas. Esse governo é uma anedota trágica. 

 

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