Quarentena (27): Foco para Rogério Sganzerla
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Quarentena (27): Foco para Rogério Sganzerla

Luiz Zanin Oricchio

04 de junho de 2020 | 11h51

Paulo Villaça em ‘O Bandido da Luz Vermelha’, de Rogério Sganzerla

Mais coisa boa (aliás, muito boa) para ver na quarentena. O SPcine Play (https://www.spcineplay.com.br/) disponibiliza, a partir de hoje, dez filmes de Rogério Sganzerla ou relacionados com o universo do diretor. O acesso é livre. 

A atração começa, claro, com a obra-prima de Rogério, Bandido da Luz Vermelha, filme que costuma ocupar lugar de destaque no cânone do cinema brasileiro, apesar de pertencer ao menos canônico dos movimentos, o chamado Cinema Marginal. 

O filme é de 1968 e, através da história de um assaltante mítico da Paulicéia, João Acácio, descreve um momento particular da sociedade brasileira – o do desespero. O que o aproxima tanto dos dias atuais. Se hoje vivemos uma pandemia, ignorada irresponsavelmente por um governo de vocação fascista, naquele tempo havia a sombra de uma ditadura militar, truculenta e sem data para acabar. 

Desse modo, algumas das frases do ‘Bandido”soam exemplares até hoje: “Quem não pode nada se esculhamba”. Ou: “Eu posso dizer de boca cheia: sou um boçal!”. Soa familiar? 

Há várias outras atrações, conforme se vê na lista abaixo. 

Destaco ainda o interessante curta Documentário, reflexão sobre a cinefilia que, apesar do título, é obra de ficção. 

Sem Essa, Aranha, Copacabana, Mon Amour, e Abismu são destaques do nosso cinema underground. Ou udigrudi, como dizia Gláuber.  Inventam na linguagem, na temática, na maneira exposta de interpretação do elenco – prestem atenção em Helena Ignez, sempre marcante. 

Em Luz nas Trevas, continuação do Bandido da Luz Vermelha, a própria Helena Ignez põe muito talento no desenvolvimento do roteiro deixado pelo marido, morto em 2004. O Bandido, no filme original interpretado por Paulo Villaça, agora é vivido por Ney Matogrosso. 

Um curta curioso é BR, bastidor da gravação de um disco antológico de 1981, Brasil (João Gilberto, Gilberto Gil, Caetano Veloso), registrado pela câmera sempre original de Rogério Sganzerla. 

 

Confira abaixo a sinopse de todos os títulos que integram o “Foco Sganzerla”:

1 – Documentário (Rogério Sganzerla) 11 min. 1966 

Direção, roteiro, montagem, produção e narração: Rogério Sganzerla. 

Sinopse: Numa tarde de ócio, pouco dinheiro e falta de rumo pelas ruas de São Paulo, dois jovens dialogam sobre o que fazer, tendo somente como motivação aquilo de que trata esta estreia de Sganzerla no cinema: o próprio cinema. 

2 – O bandido da luz vermelha

92 min,1968

Direção, roteiro e seleção musical: Rogério Sganzerla

Restaurado digitalmente.

Sinopse: Segundo o diretor, o filme “é um far-west sobre o terceiro mundo. Isto é, fusão e mixagem de vários gêneros. (…) um filme-soma; um far-west, mas também musical, documentário, policial, comédia (ou chanchada?) e ficção científica”. Rogério Sganzerla, no seu primeiro longa-metragem, traça um panorama geral e atemporal do Brasil através da trajetória de um foragido da polícia em crise de identidade. Welles, Godard, policial noir, chanchada, Jimi Hendrix, história em quadrinhos, terrorismo, miséria, corrupção política e desespero compõem um painel apocalíptico do país.

3 – B2 (Rogério Sganzerla e Sylvio Renoldi)

11 min. 2001

Direção e montagem: Rogério Sganzerla e Sylvio Renoldi.

Sinopse: Curta-metragem com precioso material inédito, realizado a partir das sobras de O Bandido da Luz Vermelha e Carnaval na lama. Espécie de mostruário do método de trabalho de Sganzerla, em muito calcado em técnicas singulares de montagem. Sylvio Renoldi, montador do Bandido e deste curta, assina também a codireção. Mais uma vez, Jimi Hendrix na trilha sonora.

Elenco: Paulo Villaça, Helena Ignez, Lanny Gordin, Gal Costa, Jards Macalé.

 4 – A volta do bandido da luz vermelha (Helena Ignez)

83 min, 2010

Um filme de Helena Ignez. Direção: Ícaro C. Martins e Helena Ignez

Sinopse: Luz nas Trevas, continuação do clássico O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla, narra a história de dois dos mais famosos marginais de São Paulo. Seu filho o bandido Tudo-ou-Nada é o fio condutor que atravessa essa história política e existencial. Adorado pelas mulheres, Tudo-ou-Nada segue a “carreira” de seu pai a fim de desfrutar de uma ampla variedade de prazeres mundanos.

 5 – História em quadrinhos (Rogério Sganzerla)

7 min. 1969

Direção: Rogério Sganzerla e Álvaro de Moya.

Sinopse: Primeiro documentário em curta-metragem de Sganzerla, e sobre uma forma de expressão artística muito presente na sua cinematografia: os quadrinhos. Guiada pelo texto de caráter histórico do especialista Álvaro de Moya, a câmera passeia pelos traços de artistas como Will Eisner, Milton Cannif, Alex Raymond, Al Capp etc.

 6- Sem essa aranha (Rogério Sganzerla)

96 min. 1970

Direção e roteiro: Rogério Sganzerla

Sinopse: Sem essa, Aranha é um experimento radical de linguagem e interpretação. O filme reflete, muito singularmente, a situação pela qual o país atravessava no período (1970) num total de aproximadamente quinze planos sequências.

 7 – Copacabana Mon Amour (Rogério Sganzerla)

85 min. 1970

Restaurado

Sinopse: Sônia Silk sonha ser cantora da Rádio Nacional e para conseguir sobreviver se entrega a turistas em Copacabana. Seu irmão Vidimar, empregado doméstico do Dr. Grilo apaixona-se pelo patrão. A mãe de Sônia e Vidimar acha que ambos estão possuídos pelo demônio. Sônia, que vê espíritos baixarem em seres e objetos os mais estranhos, resolve procurar o pai de Santo Joãozinho da Goméia.É um filme brasileiro em CinemaScope, rodado, em boa parte, em favelas do Rio de Janeiro. A trilha sonora original é de Gilberto Gil.

8 –  Viagem e Descrição do Rio Guanabara por Ocasião da França Antártica(Villegagnon)

17 min. 1976

Roteiro (baseado em Viagem à terra do Brasil), produção e direção: Rogério Sganzerla.

Sinopse: Inspirado em Viagem à terra do Brasil, de Jean de Léry, este curta-metragem aborda a trajetória do aventureiro Nicolas Durand de Villegagnon e a formação da colôniafrancesa no Rio de Janeiro, composta predominantemente por piratas sob o seu comando, no século XVI. Rodado nos locais onde se sucederam os episódios históricos,como o Forte Coligny, na Ilha das Cabras, Viagem conta com Paulo Villaça no papel de Villegagnon.

9-  Abismu

80 min. 1977

Direção, roteiro, produção e montagem: Rogério Sganzerla

Sinopse: Inscrições em algumas das cavernas da Pedra da Gávea que remontam ao período pré- colonial são o ponto de partida para este tributo a Jimi Hendrix e ao poder de Mu, divindade fenícia celebrada por um fanatizado e intergaláctico Zé Bonitinho. Com acento experimental, trilha sonora de Hendrix e atuação de José Mojica Marins no papel de um cientista egocêntrico, este filme marca o retorno de Sganzerla ao longa-metragem após um considerável período afastado das telas.

10 Brasil (Rogério Sganzerla)

12 min. 1981

Direção, roteiro e produção: Rogério Sganzerla.

Sinopse: Curta-metragem que registra os bastidores da gravação do disco Brasil, de João Gilberto, de 1981, com a presença de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia no estúdio. Dorival Caymmi, Ary Barroso, Grande Otelo e Eros Volúsia, em performances raramente registradas, e Orson Welles, no carnaval do Rio, compõem o quadro visual deste curta que apresenta uma imagem singular do país.

Elenco: João Gilberto, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia.

 

 

 

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