Quarentena (26): O prazer, segundo Maupassant e Ophuls
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Quarentena (26): O prazer, segundo Maupassant e Ophuls

Luiz Zanin Oricchio

31 de maio de 2020 | 12h33

‘A Casa de Madame Tellier’, em ‘O Prazer’, de Max Ophuls

Tenho visto muito filme velho nessa quarentena. Digo “velho” e já me corrijo. Há filmes que não passam pela prova dos anos e estes sim são antigos. Outros parecem renovar-se a cada vez que os vemos. Não é que não envelheçam jamais, mas envelhecem com dignidade. Tal é o caso de O Prazer (1952), de Max Ophuls, adaptado de três contos de Guy de Maupassant. 

Os três episódios são: A Máscara, sobre um homem já idoso que coloca uma máscara de jovem para ir dançar. A Casa de Madame Tellier, em que a tal casa é um bordel, fechado temporariamente para que madame leve suas meninas ao interior para a primeira comunhão de sua sobrinha. O Modelo é sobre o relacionamento de um pintor com a moça que posa para seus quadros. 

O primeiro e o terceiro são muito bons; o segundo é uma pequena obra-prima. Reencontramos aqui um dos motivos básicos da literatura de Maupassant, a crítica da hipocrisia social. Porém tratado com uma leveza ímpar – seu texto definitivo sobre a questão é o maravilhoso Bola de Sebo, adaptado para o cinema pelo soviético Mikhail Romm. 

Em A Casa de Madame Tellier, a acidez galante se espalha por vários segmentos do episódio. Começa pelos dignitários da cidade que entram em desespero ao encontrarem a “maison” fechada numa noite de sábado. 

Prossegue durante a viagem, com as moças airosas despertando primeiro a indignação de um casal de camponeses que entra no mesmo vagão de trem e depois a cobiça de um vendedor ambulante. 

Por fim, na chegada à cidade de destino, onde as espera um hilário Jean Gabin, no papel de irmão de Madame e pai da menina que vai fazer a primeira comunhão. Ele faz questão de beijar as moças uma a uma e as elogia dizendo que jamais transportara carga tão preciosa (si précieuse) em sua carroça. Virtualmente se apaixona por uma delas, Madame Rosa (Danielle Darrieux), o que dá lugar a situações bem engraçadas. 

Mas há também o momento de grandeza, quando as moças se emocionam durante a cerimônia religiosa e contaminam toda a igreja. Fazem com que o padre diga que havia recebido o maior presente dos céus com a reação do público. O parti-pris de Maupassant, adotado por Ophuls é muito claro: o que sobra de dignidade humana vem dos estratos sociais mais desprezados pela elite. É o que torna o filme grandioso, para além da leveza, da alegria e do humor que nos transmite. 

Diga-se que o texto de Maupassant (é preciso revisitá-lo) é simplesmente inacreditável de tão bom. Encontrou na fluidez cinematográfica de Ophuls um tradutor ideal. Os movimentos de câmera em A Máscara são encantadores, em especial nas cenas de baile. O frescor primaveril de A Casa de Madame Tellier lembra as pastorais de Jean Renoir, em especial Une Partie de Campagne (1946), também tirada de Maupassant. O Modelo traz ao longa um fecho um tanto abrupto, com valor de inquietação. 

Todo prazer tem valor em si e também seu preço. Este, por vezes, é exorbitante. Apesar da advertência, qualquer tom moralista é evitado.

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