Quarentena (24): A Cinemateca e o sorriso da Regina
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Quarentena (24): A Cinemateca e o sorriso da Regina

Luiz Zanin Oricchio

21 de maio de 2020 | 13h09

Não vou repetir o que já se sabe sobre a demissão de Regina Duarte da Secretaria Especial de Cultura. Desejo apenas comentar esse que, apesar de miúdo, me parece um dos episódios mais patéticos do (des)governo. 

Primeiro, a Regina Duarte. Causa constrangimento ver aquele sorriso plastificado, sempre estampado no rosto, como a sugerir que tudo é lindo e maravilhoso, aconteça o que acontecer. Por que seria patético? Porque, goste-se dela ou não, é uma das poucas pessoas a orbitar o (des)governo que teriam alguma biografia a defender. Regina é, ou foi, uma atriz de sucesso nacional. Todo mundo a conhece. Por que uma criatura assim, com a vida ganha, aos 73 anos, mete-se numa barca furada como esta? Francamente, não sei. Mas, seu caso é exemplar para outros que se aventurem: quem quer que se alie com gente desse tipo, fica marcado para o resto da existência. 

O último capítulo foi de um ridículo atroz. No vídeo, ela, com Bozo rindo ao fundo, proclama, com seu imbatível otimismo “que havia recebido um presente maravilhoso”. Ia “fazer” Cinemateca. À guisa de consolo pela demissão, recebia um cargo. E – maravilha – esse “emprego” fica perto do seu apartamento em São Paulo, como elogiou o presidente, certo de que o casamento que não se consumou terminava numa boa. 

O uso do verbo “fazer”, meio estranho no contexto da frase e na boca sempre sorridente de Regina, parece significativo. Talvez Bolsonaro tenha lhe dito que ela iria presidir a Cinemateca, sem saber que o cargo não existe. Não importa. Regina iria para a Cinemateca, sentar-se numa poltrona imaterial e dirigir o que não conhece, ou, talvez ocupar apenas uma posição simbólica numa instituição abstrata em sua mente. Assim “fazer” a Cinemateca, por sua significativa imprecisão, sugere que pode ser qualquer coisa, ou coisa nenhuma. Não importa, desde que ela tenha um cargo, ainda que vazio, para chamar de seu. E desde que não fique ao relento. Afinal, fez o distrato com a Globo depois de 50 anos e embarcou em aventura com seu amado Bolsonaro, obviamente quebrando a cara. 

A amiga e mentora de Regina Duarte, a deputada Carla Zambelli (PSL-SP), pôs os pingos nos iis: Regina tinha recebido o cargo (que não existe) “para não ficar desamparada”. Um prêmio de consolação, com valor simbólico e também pecuniário, pois implica remuneração. Sem mais emprego na Globo, a ex-namoradinha do Brasil teria assim, como compensação pelos vexames sofridos e perda de renda, uma descrição de cargo para colocar no cartão de visitas e, por que não?, um salariozinho no fim do mês.

Por aí se vê, como a “coisa pública” é tratada por este (des)governo e os que o servem. O presidente se livra de uma secretária que não se encaixou em sua equipe e lhe dá uma lembrancinha de despedida, a Cinemateca. Regina aceita o mimo como um “presente”. A intermediária, Carla Zambelli, não hesita em dizer que foi para não deixá-la “no desamparo”. 

A coisa pública é tratada como coisa privada para acomodar situações, premiar os amigos, colocar panos quentes em determinadas ocasiões. Afinal, quando Regina foi convidada, isso foi tratado como gol de Bolsonaro por se tratar de figura nacional. E se a noivinha, enraivecida, resolvesse sair atirando, como Mandetta e Moro? Chato, né? Então, mandá-la “fazer Cinemateca” seria uma forma barata de garantir aquele sorriso alvar no rosto da ex-namoradinha e ex-noivinha. 

Em tudo isso, o que não se fala é sobre a Cinemateca Brasileira. Também não vou lembrar aqui tudo o que ela significou em termos de sonho de várias gerações de profissionais dedicados ao cinema ou de pessoas comuns que, simplesmente, amam essa arte. 

Apenas que surgiu da iniciativa de várias pessoas, capitaneadas pela figura tutelar de Paulo Emilio Salles Gomes, o mais importante pensador de cinema do país. Paulo Emilio inspirou-se no modelo francês, através de sua amizade com o lendário Henri Langlois, da Cinemathèque Française.

Era um tempo em que se pensava em construir o Brasil, não em destruí-lo. E a Cinemateca surge como um entre vários marcos simbólicos civilizatórios no processo de construção cultural do país. Antonio Candido, outro dos fundadores, escrevia sobre a necessidade de formação de uma literatura nacional. Décio de Almeida Prado dizia o mesmo do teatro. Paulo Emilio era a vertente formativa em relação ao cinema. Este, feito de matéria frágil, necessitava também da conservação do seu suporte físico. Daí a necessidade de uma cinemateca – para armazenar, recuperar, servir de base de pesquisa e exibir o material fílmico. 

A nossa Cinemateca, cuja origem remonta aos anos 1940, não se chama Cinemateca Paulista, ou Paulistana, mas Brasileira, pois tem essa vocação de guardiã da memória audiovisual nacional. Os tesouros lá depositados – filmes, programas de TV, documentos, negativos – são, literalmente, incalculáveis. 

E isso porque se referem à memória nacional, àqueles suportes físicos que nos ajudam a lembrar como fomos e, portanto, como podemos ser. Perdidos, é nossa própria História que se vai. Nossa identidade como país, nosso passado, com seus percalços e vitórias. Nossa vergonha na cara, da qual precisaremos com todas as forças quando esta página infeliz da nossa história for virada e tivermos de reconstruir o país a partir dos escombros deixados pelos bárbaros.