Quarentena (19): o último refúgio dos canalhas
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Quarentena (19): o último refúgio dos canalhas

Luiz Zanin Oricchio

06 de maio de 2020 | 12h18

Vendo, mais uma vez, uma dessas manifestação dos apoiadores do presidente, com suas camisas da CBF e bandeiras nacionais, foi inevitável lembrar da frase famosa de Samuel Johnson: “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas”. 

Não há dúvidas. Esse patriotismo tosco, violento e redutor está presente nas ideologias fascistas em qualquer de suas formas. Não poderia faltar ao fascismo à brasileira proposto por Bolsonaro e seu grupo. Supõe uma “ideia” de fechamento a tudo que lhe é estranho, aos “inimigos”, aos “estrangeiros”, aos conspiradores internos, e esposa a convicção abstrusa de bastar-se a si mesmo: tudo o que é diferente, é inimigo. 

Não que toda ideia de pátria seja estúpida como esta que vemos pelas ruas neste triste tempo. Há um ideal nacionalista interessante pelo valor de identificação com a terra onde se nasceu, da qual se fala a língua e em cuja cultura nos formamos. 

A essa pátria desejamos todo o bem. Sentimo-nos na obrigação de defendê-la quando atacada e não permitimos que suas riquezas sejam entregues ou dilapidadas. Mas jamais nos fechamos em suas fronteiras – geográficas ou simbólicas. Amamos sua cultura, sem desprezar a dos outros. Pelo contrário, vamos à cultura alheia para enriquecer a nossa própria. Mantemos o nosso ponto de identificação, mas nos abrimos para o Outro, nessa troca porosa de enriquecimento mútuo. Alguém já disse que a cultura é a única fortuna que cresce quando partilhada. 

Somos todos diferentes, mas a família humana é uma só, como sabe todo aquele que viveu no exterior e sentiu saudades de sua terra natal. 

Vinícius de Moraes escreveu lindamente: 

PÁTRIA MINHA

Barcelona , 1949

A minha pátria é como se não fosse, é íntima 

Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo 

É minha pátria. Por isso, no exílio 

Assistindo dormir meu filho 

Choro de saudades de minha pátria. 

 

Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi: 

Não sei. De fato, não sei 

Como, por que e quando a minha pátria 

Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água 

Que elaboram e liquefazem a minha mágoa 

Em longas lágrimas amargas. 

 

Vontade de beijar os olhos de minha pátria 

De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos… 

Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias 

De minha pátria, de minha pátria sem sapatos 

E sem meias, pátria minha 

Tão pobrinha! 

 

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho 

Pátria, eu semente que nasci do vento 

Eu que não vou e não venho, eu que permaneço 

Em contato com a dor do tempo, eu elemento 

De ligação entre a ação e o pensamento 

Eu fio invisível no espaço de todo adeus 

Eu, o sem Deus! 

 

Tenho-te no entanto em mim como um gemido 

De flor; tenho-te como um amor morrido 

A quem se jurou; tenho-te como uma fé 

Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito 

Nesta sala estrangeira com lareira 

E sem pé-direito. 

 

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra 

Quando tudo passou a ser infinito e nada terra 

E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu 

Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz 

À espera de ver surgir a Cruz do Sul 

Que eu sabia, mas amanheceu… 

 

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha 

Amada, idolatrada, salve, salve! 

Que mais doce esperança acorrentada 

O não poder dizer-te: aguarda… 

Não tardo! 

 

Quero rever-te, pátria minha, e para 

Rever-te me esqueci de tudo 

Fui cego, estropiado, surdo, mudo 

Vi minha humilde morte cara a cara 

Rasguei poemas, mulheres, horizontes 

Fiquei simples, sem fontes. 

 

Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta 

Lábaro não; a minha pátria é desolação 

De caminhos, a minha pátria é terra sedenta 

E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular 

Que bebe nuvem, come terra 

E urina mar. 

 

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem 

Uma quentura, um querer bem, um bem 

Um libertas quae sera tamen 

Que um dia traduzi num exame escrito: 

“Liberta que serás também” 

E repito! 

 

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa 

Que brinca em teus cabelos e te alisa 

Pátria minha, e perfuma o teu chão… 

Que vontade me vem de adormecer-me 

Entre teus doces montes, pátria minha 

Atento à fome em tuas entranhas 

E ao batuque em teu coração. 

 

Não te direi o nome, pátria minha 

Teu nome é pátria amada, é patriazinha 

Não rima com mãe gentil 

Vives em mim como uma filha, que és 

Uma ilha de ternura: a Ilha 

Brasil, talvez. 

 

Agora chamarei a amiga cotovia 

E pedirei que peça ao rouxinol do dia 

Que peça ao sabiá 

Para levar-te presto este avigrama: 

“Pátria minha, saudades de quem te ama… 

Vinicius de Moraes.”

Essa pátria eu desejo, venero, defendo. Da pátria bolsonarista, quero distância. 

Na coluna de Ancelmo Gois (O Globo, 6/5/2020), Francisco Bosco (filho de João) escreveu sobre esse nacionalismo tosco e seu contrário, a dimensão universal da arte popular brasileira: “O Brasil oficial tem sido um país injusto e segregador. Mas há um outro Brasil, o da cultura popular, menos desigual, feito de encontros, porosidades, utopias. Nesse, Caymmi fala para Oxum que, com Silas de Oliveira, está em boa companhia. O céu abraça a terra: o Rio, a Bahia. Enquanto muitos países do mundo sofreram com as pragas do nacionalismo, aqui a nação desejou-se uma comunidade aberta, fundada na mistura. Essa utopia é o mistério brasileiro do planeta. Ela nunca se realizou, mas era o sonho desses que morreram, e de tantos outros que os sobrevivemos. A nação de Bolsonaro, contudo, é outra: é a do nacionalismo, em que alguns se julgam o povo autêntico e esmagam minorias. Tudo em nome de Deus e dos ‘cidadãos de bem’. E assim o nacionalismo vai sufocando a utopia plural da nação brasileira, o melhor sonho que já sonhamos. Acordemos para sonhá-lo novamente.”

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