Quarentena (18): Os bailes de Jacques Becker
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Quarentena (18): Os bailes de Jacques Becker

Luiz Zanin Oricchio

05 de maio de 2020 | 13h46

Simone Signoret e Reggiani em “Amores de Apache’

Durante o confinamento, andamos, minha mulher e eu, vendo filmes “velhos” e séries novas. Assistimos a dois longas de Jacques Becker, Amores de Apache (1952) e Os Amantes de Montparnasse (1958). 

A sugestão de Becker veio do documentário ótimo de Bertrand Tavernier, Uma Viagem Através do Cinema Francês. Trip, diga-se, bem particular, mas cheia de sugestões. Enfim, entre os destaques de Tavernier estava uma cena de baile de Amores de Apache (Casque D’Or), em que Simone Signoret dança com um homem enquanto flerta abertamente com outro. 

Há aí toda uma plástica do baile popular, os “bal musette”, prática comum na França (pelo menos era assim), surgida na belle époque e ainda presente, ainda mais na festa do 14 juillet, quando toda a Paris se transforma num grande baile composto de pequenos bailes. 

Mas, enfim, Signoret, no papel de Marie, apelidada de Casque d’Or em virtude dos seus abundantes cabelos loiros, está, nesse flerte, dando início a um triângulo, ou melhor quadrângulo amoroso, de consequências trágicas. Prostituta ligada a uma gangue, ela levará seu amante Georges Manda (Serge Reggiani) a uma espiral de violência, que destruirá todos os envolvidos. Uma tragédia, porém pontuada de tons cômicos. 

Vê-se no filme a afinidade de Becker com o melodrama norte-americano. Mas há, ao mesmo tempo, uma liberdade que vai além da imitação, um certo descompromisso com a trama e um apego aos personagens, que tornam os filmes mais originais do que parecem à primeira vista. 

Esse mundo do baile está também presente em Os Amantes de Montparnasse, uma cinebiografia ficcional do pintor Amedeo Modigliani (1884-1920). É no interior de um bar que Modigliani, chamado Modi (Gérard Philippe) consegue centralizar sua libido bastante dispersa na jovem estudante de pintura Jeanne (Anouk Aimée). 

Na vida real, Jeanne Hébuteme foi mesmo mulher de Modigliani, com quem teve uma filha, também chamada Jeanne. Estava grávida de outro bebê quando se suicidou um dia após a morte de Modigliani. Esse desfecho trágico não está presente no filme. 

Nele, vemos a trajetória comum dos artistas da belle époque, trabalhando na miséria em busca de um ideal estético. Sem conseguir vender quase nada em vida, deixam obras avidamente disputadas por colecionadores e museus. São milionários póstumos, mortos na indigência. 

A relação dos jovens turcos da nouvelle vague com Becker é meio ambivalente. Sabiam que ele não era um mestre (o mestre era Jean Renoir). Mas, ao mesmo tempo, aprovam a admiração de Becker pelo cinema norte-americano, redescoberto após o final da 2ª Guerra. E também sua independência, a coragem de lutar por suas ideias sem se intimidar. 

Por exemplo, no texto dedicado a Becker em Os Filmes da Minha Vida, François Truffaut, fala de Casque D’Or e da assimetria do par central. Simone Signoret era uma mulher alta e imponente; Reggiani, baixinho e franzino. Diz Truffaut que o público francês ria, mas que o inglês, “decididamente mais fino” respeitava o filme. Para Truffaut, o casal é belo justamente por seu paradoxo, mulher grande, homem pequeno. 

Ao ler esse trecho, não pude evitar a lembrança de uma cena de um dos filmes de Truffaut (Beijos Roubados, talvez), em que seu alter ego, Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) não chega nem ao ombro da loira descomunal que passeia com ele pela rua. O efeito é cômico. Mas também desperta ternura. Quem sabe não foi uma homenagem oculta de Truffaut a Becker? 

Em todo caso, assim escreve: “Amores de Apache,às vezes engraçado e outras trágico, prova, finalmente, que é possível ultrapassar a paródia através da utilização refinada do tom, olhar um passado pitoresco e sangrento e depois ressuscitá-lo com ternura e violência”. 

Mais radical, Godard chegou a afirmar, em sua crítica de Os Amantes de Montparnasse, que “trocaria todo o cinema francês dos anos 1950 por um plano mal interpretado, mal enquadrado, mas sublime” de Becker. 

A pulsão de fazer cinema se sobrepõe ao ideal de perfeição – que, aliás, não existe. 

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