Quarentena (14): Copa de 1970
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Quarentena (14): Copa de 1970

Luiz Zanin Oricchio

19 de abril de 2020 | 14h15

 

Tem sido uma delícia acompanhar pelo SporTV os jogos da seleção brasileira na Copa de 1970, no México. 

Afirmação subjetiva: para mim, foi a maior Copa do Mundo de todas as que vi. Sei onde estava e com quem estava em cada um dos seis jogos da seleção. Digo isso apenas para afirmar o valor emocional que os jogos provocaram. Costuma-se fazer essa pergunta às pessoas em torno dos grandes acontecimentos. Para os mais velhos: onde você estava quando Kennedy foi assassinado? Eu sei. Estava numa aula particular de matemática, com um professor italiano que me dispensou assim que soube da notícia: “Vai pra casa, vai, antes que os russos tem peguem”. Saí feliz, dispensado do logaritmo, mas assustado com os destinos do mundo. 

A maior parte dos jogos da Copa de 1970 assisti no cursinho Equipe, que ficava em Higienópolis. Era um ambiente de esquerda, de opositores do regime e havia, naquela época, a discussão se deveríamos ou não torcer pela seleção, já que uma eventual vitória seria aproveitada politicamente pela ditadura. Verdade. Mas quando a bola começou a rolar ninguém que eu conheça deixou de roer as unhas e torcer pela seleção de Rivelino, Jair, Tostão, Gérson, Clodoaldo, etc. Naquele tempo, a seleção tinha um valor simbólico muito forte para cada um de nós. Representava o país. Estava acima de um regime detestável, que queríamos derrubar. Este era contingencial. A seleção era eterna. (Não era. Esse valor simbólico foi sendo corroído e na prática desapareceu. Hoje, o interesse pela seleção é apenas residual). 

  Nunca havia revisto os jogos, a não ser a partida final, contra a Itália. Ver o conjunto da campanha no México é coisa das mais interessantes. 

Podemos apreciar a seleção de 1970, sem mistificá-la. Vemos os grandes acertos; vemos também os erros, porque a perfeição não é virtude do futebol. E nem da vida. Mas, acima de tudo, vemos a sua modernidade. 

A polivalência dos jogadores, a bola de pé em pé em passes rápidos, a formação compacta, a alternância da forma de marcação – tudo isso aponta para a modernidade. 

Esse processo de transição para o futebol contemporâneo é completado em seguida por Rinus Michels e a seleção holandesa, que deveria ter vencido a Copa de 1974 mas acabou em segundo lugar, por capricho do destino. Mesmo vice, foi a Holanda que marcou a época, e não a Alemanha que ficou com o troféu. 

Esse processo, que a meu ver desemboca na Holanda, e depois no Barcelona e na seleção alemã de 2014, começa lá atrás em 1970, com as feras da seleção brasileira, no trabalho iniciado por João Saldanha e completado (ou modificado) por Zagalo. 

O prazer vem de ver em ação jogadores excepcionais. A força física e o faro de gol de Jairzinho, a inteligência fora de comum de Tostão, os dribles desconcertantes e os chutes de Roberto Rivelino (naquele tempo, com um L só), os lançamentos de Gérson, a classe de Carlos Alberto Torres e Clodoaldo. E, sobretudo, a magia de Pelé, no auge da forma e da sabedoria.  

Foi a Copa do Rei, como ele mesmo costuma dizer. Na de 1958 era um menino de 17 anos, um milagre que aconteceu na Suécia e a todos desconcertou. Em 1962, a contusão no segundo jogo e a frustração de ficar de fora do resto do torneio. Em 1966, caçado em campo, a Copa perdida. Para a de 1970 ele se preparou minuciosamente, porque seria a última, qualquer que fosse o resultado. 

Pelé fez de tudo no México. Gol de cabeça, de falta, de pé direito, deu passes fundamentais, matadas no peito, entortou zagueiros, sofreu faltas e as cometeu. Marcou, passou, chutou e lançou; orientou o time, definiu, ocupou o meio campo, deu cotovelada em zagueiro e apareceu na área para definir. Bem vistos esses seis jogos, foi um recital de gala do Rei. 

E esse recital só se completa quando se pensa nos gols que não fez, mas que entraram para a História do futebol: o chute do meio campo tentando encobrir o goleiro da Tchecoslováquia, a cabeçada mortal defendida por Banks, o chute de primeira no tiro de meta defeituoso do goleiro do Uruguai. E, por fim, a obra-prima: o drible de corpo, em corta-luz, sobre o goleiro Mazurkiewicz. 

Lembro de dois desses lances em especial, por causa do efeito que causaram quando eu os via ao vivo, pela primeira vez. Num primeiro momento, a incompreensão. Na fração de segundo seguinte, o entendimento surpreso do que Ele estava tentando fazer. Como pudera pensar naquilo? E pensar num átimo, no tempo mínimo que se tem para definir uma jogada?

Como se chama isso? Efeito poético, em que uma palavra usual é trocada por outra e isso produz um efeito de sentido no leitor ou no ouvinte. Produz essa coisa misteriosa que é a emoção. Uma luz no espírito. 

São assim as jogadas de Pelé. Fachos de luz.

Repeti-las, como dizia dessas jogadas o grande crítico de teatro Décio de Almeida Prado, já não é tão difícil. Concebê-las pela primeira vez merece o nome de arte.    

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