Quarentena (13): Presença de Stefan Zweig
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Quarentena (13): Presença de Stefan Zweig

Luiz Zanin Oricchio

14 de abril de 2020 | 09h43

 

Cena do filme Stefan Zweig, Adeus à Europa, de Maria Schrader

O espectro do escritor austríaco Stefan Zweig (1881-1942) ronda minha quarentena. 

Primeiro foi na série da Netflix, Freud, que transforma o inventor da psicanálise em detetive. Em entrevista a Elaine Guerini no Valor Econômico, o diretor da série diz ter se baseado na autobiografia de Zweig, O Mundo de Ontem, para reviver o ambiente da Áustria daqueles anos, em especial final do século 19, que é quando a história se passa. 

Depois foi a vez da ótima série de Mark Cousins, sobre mulheres no cinema, Women Make Film, 14h de duração, atração do festival É Tudo Verdade Online. Um dos filmes citados por Cousins é Stefan Zweig – Adeus à Europa, da diretora Maria Schrader. Surpreendente, diga-se. 

Já conhecia Zweig de algumas leituras, como Amok, mas, em especial, através da biografia escrita pelo jornalista Alberto Dines, Morte no Paraíso, que, aliás, inspirou o filme de Sylvio Back Lost Zweig

Dines era obcecado pela história desse judeu austríaco, um dos escritores mais famosos de sua época e que atravessou o trauma de duas guerras mundiais. Na segunda, refugiou-se no Brasil, em companhia de sua esposa, Lotte. O casal se estabeleceu em Petrópolis e lá se suicidou em 1942, quando os rumos da guerra eram ainda indefinidos e uma vitória da Alemanha nazista não parecia fora de cogitação. 

Zweig escreveu um livro famoso, Brasil, um País do Futuro, em que conta suas viagens pelo país. Foi acusado por alguns de ser um tanto ufanista. No filme de Maria Schrader, o personagem de Zweig, interpretado por Josef Hader, diz, em certo momento, que talvez tenha sido “pouco crítico” em seu livro. Era um tempo em que vistos de permanência eram difíceis de obter, ainda mais se o candidato fosse judeu, como era o caso de Zweig. Mais ainda num país sob ditadura, como era o caso do Brasil de Vargas, ainda oscilando entre neutralidade, apoio aos aliados ou aos alemães.

Leiam o que ele escreve sobre o nosso país em sua autobiografia: “(No Brasil)…As pessoas conviviam mais em paz, com mais cortesia, a relação mesmo entre as mais diversas raças não era tão hostil como entre nós. Ali o homem não era apartado do homem por teorias absurdas de sangue e origem, ali ainda se podia – e isso eu percebi com um estranho pressentimento – viver paz, ali havia espaço para o futuro em uma abundância incomensurável, enquanto na Europa as nações lutavam e os políticos disputavam os pedaços mais miseráveis”.  

Cá entre nós, tudo é História e contexto. O que diria Stefan Zweig do nosso Brasil contemporâneo e das figuras que o governam?  

No filme de Schrader, Zweig é visto em alguns momentos da fase final de sua vida – recebido em banquete no Rio de Janeiro, celebridade numa cerimônia do PEN Club em Buenos Aires, estrangeiro badalado na Bahia, acertando contas familiares em Nova York e, por fim, de volta ao Brasil, desta vez instalado na bucólica Petrópolis. 

No documentário Women Make Film, Cousins destaca a abertura do longa de Maria Schrader, com a câmera focando um lindo arranjo de flores para o banquete em homenagem ao escritor. E, mais uma citação, o maravilhoso – e terrível – desfecho. (Se você for muito sensível a spoilers e pretende ainda ver o filme, pule o parágrafo seguinte). 

Na sequência, há uma movimentação de pessoas no interior da casa de Petrópolis. Ouvem-se falas em em voz baixa porém excitadas. Alguém abre a porta de um armário do quarto e apenas através do espelho interno do móvel é que vemos do que se trata: sobre a cama estão Stefan Zweig e a esposa, Lotte (Aenne Schwarz, no filme), mortos. Desse momento em diante, a tela fica dividida entre as imagens “diretas” da casa e a do interior do quarto, refletida pelo espelho, com visão para a cama e o casal deitado. Na última cena, uma empregada negra ajoelha-se aos pés do leito, reza uma Ave Maria e sai. Fim. 

Para mim, o filme é bastante bom. Me pareceu uma sacada inteligente retratar a vida do homem em momentos marcantes de seu exílio. E acima de tudo, não tentar explicar o que, no limite, talvez seja inexplicável. Por que um homem do quilate de Zweig, por fim acomodado em um ambiente como Petrópolis, ao abrigo do furor da guerra, resolve matar-se, aos 60 anos, em companhia de sua jovem esposa?

Mistérios da vida, e da morte. Mas a leitura da autobiografia pode dar algumas pistas. O livro é brilhante. Escrito em prosa fluida e envolvente, leva o leitor ao ambiente em que o garoto, nascido em Viena em 1881, se desenvolveu. Era um mundo de cultura e estabilidade até se dissolver de maneira inesperada (ao menos para o escritor) em 1914, com a Primeira Guerra Mundial. Fim da belle époque. Fim simbólico do século 19, no entender do historiador Eric Hobsbawm.  

Zweig era visceralmente europeu, vienense formado sob o império dos Habsburgo, e viver fora do seu ambiente cultural, mesmo no paradisíaco Brasil, talvez lhe fosse insuportável. Ele escreve, no prólogo de sua autobiografia: “Cresci em Viena, a metrópole supranacional de dois mil anos, e tive de deixá-la como um criminoso, antes de ser rebaixada a uma cidade provincial alemã”. Refere-se ao Anschluss, a anexação da Áustria pela Alemanha em 1938, um prelúdio da guerra total. 

O Mundo de Ontem foi escrito em Nova York, mas o prólogo, a última parte que se escreve de um livro, talvez tenha sido redigido já no Brasil. E nele se antevê o fim planejado, como destaca Alberto Dines, prefaciador do livro de Zweig. “Terminou de escrevê-las (as memórias) pouco antes de tomar a dose letal de morfina no pequeno bangalô da Rua Gonçalves Dias, em Petrópolis. 

Nas últimas palavras do prólogo de O Mundo de Ontem, Zweig parece dirigir-se já à posteridade: “Portanto, recordações, falem e escolham no meu lugar, e forneçam ao menos um reflexo da minha vida antes que ela submerja nas trevas!”

 

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