Quarentena (11). A ‘Eva’ perversa de Jeanne Moreau
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Quarentena (11). A ‘Eva’ perversa de Jeanne Moreau

Luiz Zanin Oricchio

08 de abril de 2020 | 14h07

Jeanne Moreau, a Eva de Joseph Losey

Prosseguindo nosso passeio pelo Belas Artes à la Carte (belasartesalacarte.com.br) vimos ontem Eva, de Joseph Losey, com Jeanne Moreau no papel principal. 

Ela é uma femme fatale arquetípica, daí o prenome de ressonância bíblica. De fato, o filme abre com a citação “E o homem e a mulher estavam nus juntos e não sentiam vergonha”. Isso antes da intervenção da serpente, lógico, e da “maçã”, o fruto proibido que, experimentado, os expulsa do Paraíso e os condena ao trabalho, à dor…e à culpa.

A “vítima” de Eva é o escritor Tyvian Jones, interpretado pelo britânico Stanley Baker. Parêntese: Na plataforma, cada obra vem acompanhada de dados técnicos e de um videozinho chamado Por que ver o filme. Nesse clipe, ficamos sabendo que o diretor originalmente seria Jean-Luc Godard, que exigiu Richard Burton para o papel do escritor apaixonado por Eva e por ela manipulado. Burton não estava disponível e Godard desistiu do projeto que então passou para Losey. Podemos apenas especular o que teria sido com Godard. 

Com Losey temos um filme à sua maneira brechtiana, distanciada, com boa dose de um certo artificialismo. A história se passa na Itália, entre Roma e Veneza. Mas a cidade dos Doges é a locação principal, numa fotografia em preto e branco que é puro encanto. Vemos a Veneza histórica em seus salões luxuosos, com o beautiful people que nele se abrigava, ou bebericando no Harry’s Bar. Vemos também algumas locações famosas, como a Piazza San Marco, sempre lotada de turistas mas estranhamente vazia – como hoje de fato está, com a pandemia. 

La Moreau domina o filme de ponta a ponta, com sua expressão permanente de tédio existencial, erotismo e malignidade – ao som da Billie Holiday de Willow Weep for Me. Essa máscara de enfado e mal-estar de certa forma aproxima a obra de A Noite, de Michelangelo Antonioni, parte da chamada “trilogia da incomunicabilidade” (título que o maestro detestava). Mas Antonioni é de outra carnatura cinematográfica. 

Losey opta por uma linguagem de câmera com  enquadramentos inusitados e nada naturais, planos laboriosamente construídos com espelhos, transparências, etc. São recursos que nos tiram, a nós espectadores, do centro da cena. 

Eva é o próprio mistério. O mistério feminino aos olhos de um homem desamparado, desesperado e pronto a tudo. É um estudo sobre o desejo, e seus paradoxos. Virna Lisi, bem jovem, faz um papel muito mais decifrável. 

Filme muito interessante, é o mínimo que se pode dizer. 

 

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