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Quando o melhor não vence

Luiz Zanin Oricchio

08 de novembro de 2011 | 20h40

Amigos, depois de ver os jogos dessa rodada lembrei uma frase de Winston Churchill. Esse velho guerreiro, que conduziu seu país à vitória contra os nazistas na 2ª Guerra Mundial, disse um dia, entre uma baforada e outro do seu charuto de Havana: “A democracia é o pior dos regimes, com exceção de todos os outros conhecidos”. Bola na rede. Nada é conforme os nossos ideais, nos lembra Churchill. E, como a perfeição não é mesmo deste mundo, somos obrigados a escolher entre os males o menor. No caso de Churchill, a democracia, com todas as suas imperfeições, já bastante conhecidas entre nós, mas ainda assim sempre preferível aos despotismos de qualquer natureza. No nosso terreno, meros e mortais amantes do futebol, a disputa por pontos corridos, que com os seus defeitos, ainda é superior aos acidentes dos outros sistemas de disputa.

Digo isso porque, após ver os jogos, ao vivo ou em gravações, fiquei convencido de que o melhor time do Brasil não será o campeão do ano. Isso, contrariando todas as nossas convicções (minhas também) de que o sistema por pontos corridos é o mais justo, por premiar a regularidade e o desempenho ao longo de toda a competição e não apenas em seus momentos mais decisivos.

Em Uberlândia, o ainda favorito ao título, o Corinthians, deixava de abrir vantagem na conquista pela taça ao empatar, de modo medíocre, com o América Mineiro, o último colocado da tabela e virtual rebaixado. A uns 600 e tantos quilômetros de Uberlândia, o Santos derrotava o Vasco da Gama na Vila Belmiro. Vasco, que é o mais direto concorrente do Corinthians pelo título. Em andamento lúdico, de brincadeira mesmo, o Santos transformou um jogo em tese sem interesse para ele em importante treino para o Mundial. E assim fazendo, venceu, com futebol bonito e convincente. Futebol de campeão, diria um desavisado.
Com Neymar mais uma vez em estado de graça e Ganso voltando com bom desempenho, o Santos sobrou em campo. O placar poderia ter sido maior caso os companheiros de Neymar não desperdiçassem inúmeras chances proporcionadas pelos passes do garoto. E pelos toques de Ganso, com a técnica intacta, embora sentindo falta de ritmo.

Enfim, o melhor time do campeonato estava jogando, sem qualquer chance de título, em sua casa, na Vila Belmiro. Derrotava um dos sérios candidatos, o Vasco, enquanto outro, o Corinthians, afundava diante do lanterna.

E por que o Santos, que é sabidamente o melhor time do campeonato, não vai vencê-lo? Ora, por razões que todos conhecem. Ressaca da Libertadores, muitos desfalques, abusos das seleções (principal e sub-20), etc. Há outro fator. O Santos jogou a toalha cedo demais. Se tivesse duas vitórias a mais, a esta altura do campeonato ainda estaria disputando o título. E, como voltou a jogar bem (porque nem sempre o melhor time é o que está jogando em nível acima dos outros), poderia atropelar na reta final e ganhar seu nono troféu de campeão nacional. Abandonou a disputa quando ainda estava dentro dela, e sem sabê-lo. Também, como poderia adivinhar a incompetência crônica dos primeiros colocados?

Essa consideração seria uma defesa dos mata-mata contra o sistema de pontos corridos? Nada disso. O sistema de pontos corridos é pedagógico. Obriga os clubes a uma certa disciplina de contratações e gestão ao longo do ano. Time que dilapida seus recursos e vende seus atletas a preço de banana no meio do ano não tem vez nesse sistema.

Para que ele fosse mais efetivo, porém, seria preciso certa colaboração da CBF. Em especial na feitura do calendário, que pior não poderia ser. Com os times se dividindo entre várias competições e os melhores cedendo jogadores para os tolos amistosos da seleção, enquanto o campeonato continua a ser jogado, é impossível qualquer planejamento sério. Ainda que isso não venha a acontecer, o sistema de pontos corridos continuaria a ser o mais justo. Mesmo que premie o time que fez mais pontos, e não necessariamente o melhor.

(Esportes)

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