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Quando o crime acontece num país do 1.º Mundo

Luiz Zanin Oricchio

01 de julho de 2007 | 15h46

Mulheres Desesperadas tem atrativo prévio por ser um raro filme holandês que chega ao atravancado mercado brasileiro. Filme sobre mulheres, dirigido por uma mulher, Esmé Lammers, procura mostrar que aflições, inclusive econômicas, fazem parte da vida das pessoas, e não apenas em países como o Brasil que por eufemismo são chamados de ‘em desenvolvimento’. Na Holanda também tem gente com mais contas a pagar do que dinheiro disponível e isso às vezes pode levá-las ao desespero, como acontece com as mulheres de que fala o título em português (em inglês, o filme se chamou The Amazones, As Amazonas, por motivos que parecem óbvios).

No entanto, a idéia de que um filme holandês possa, por si só, representar uma grande novidade não se agüenta nem cinco minutos. Isso porque está mais do que generalizado um certo ‘world cinema’, sem assinatura e sem estilo, que pode ser feito em qualquer lugar do planeta. Sobram, é claro, a locação holandesa e a língua do país como elementos de diferenciação. No mais, Mulheres Desesperadas poderia ter sido feito em qualquer lugar do mundo ocidental, dos Estados Unidos à Europa, sem que pudéssemos detectar sua origem pela linguagem cinematográfica adotada. Mesmo no Brasil já se fazem filmes assim, basta ter olhos para ver.

Nada disso quer dizer que Mulheres Desesperadas seja o pior filme do mundo. Nada disso, dá até para curtir, com certa parcimônia, essa história das quatro amigas, cada qual com seu enrosco existencial próprio, que decidem ir às vias de fato para safar-se de dificuldades econômicas. Eis aí: problemas no casamento ou com o ex; viuvez não assimilada de uma e envolvimento com drogas de outra. Personalidades que vão da irresponsável à exuberante passando pela romântica. E temos o filme de uma mulher sobre mulheres que delinqüem mas não são más pessoas. O aspecto social do crime bem como a psicologia das personagens ficam de fora.

(Estadão, Caderno 2, 29/6/07)

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